Sós?

10 Apr 2013 Categoria(s): AnaCrônicas

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Na Itália, Lorenzo Marsili, através da European Alternatives, está em campanha para conseguir um milhão e assinaturas para que a União Europeia recomende novas leis sobre regulamentação da comunicação em seus países.

Bea Bodrogi é uma advogada húngara que apoia a iniciativa e defende jornalistas acusados, normalmente pelo governo de seu país, de falar mais do que deveriam.

Através de campanhas de financiamento coletivo, a agência Louder, de Colin Mutchler, compra espaços publicitários na internet e na mídia tradicional para dar visibilidade a movimentos sociais estadunidenses.

Antes dos dezoito anos de idade, YingYing Shang juntou-se com um grupo de amigas e criou a Spark a Movement, que questiona esteriótipos de adolescentes na mídia dos Estados Unidos. Aperrearam tanto que mudaram até a política de uso do photoshop na revista Seventeen, uma das mais populares do país neste segmento.

Na América Latina, a professora Úrsula Freundt, da Universidade Peruana de Ciências aplicadas, está dedicando esforços junto à comunidade acadêmica de seu país para construir alternativas de comunicação para a parcela da população que não fala espanhol como primeira língua e busca desenhar metodologias de análise crítica de mídia para vários grupos sociais.

Colher e distribuir informações sobre o que acontece no mundo, especialmente no que diz respeito ao direito à comunicação é uma das tarefas de Kate Coyer, da Global Voices – uma comunidade de mais de 700 escritores/as e 600 tradutores/as que produz e distribui informações em mais de 30 línguas diferentes. Não fossem alguns deles/as, dificilmente saberíamos que existem três blogueiros presos em Bangladesh pelo ‘crime’ de blasfêmia.

À frente do Fight for the Future, Holmes Wilson defende a liberdade na internet. A organização em que trabalha foi uma das primeiras no mundo a protestar contra o Sopa, o projeto de lei gringo que ameaçaria gravemente a liberdade de expressão na grande rede de computadores, especialmente em países sob regimes totalitários.

Ainda sobre internet, o cineasta israelense Naor Elimelech, que vive no Brasil, juntou-se com um punhado de organizações rochedas para criar a série de filmes interativos Freenet, que trata não só de liberdade, mas de privacidade na rede e acesso à banda larga especialmente em países do Hemisfério Sul.

Essa turma toda e mais quase 2 mil ativistas do mundo inteiro estiveram presentes no último final de semana na National Conference for Media Reform, que aconteceu em Denver e foi promovida pela Free Press, uma organização sediada em Washington DC e entre outras coisas busca, através de muita pressão política junto à Comissão Federal de Comunicação (FCC na sigla em inglês, órgão de regulação da mídia nos EUA), manter as limitações à propriedade cruzada (uma mesma empresa não pode controlar televisão e jornal num mesmo mercado, por exemplo) e propor políticas que aumentem o número de mulheres e grupos raciais historicamente excluídos no comando de veículos de radiodifusão.

Estabelecer algumas dessas regras é o que quer João Brant, um dos coordenadores do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação no Brasil, que também estava no evento. O FNDC é uma das dezenas entidades da sociedade civil brasileira que estão em campanha pelo direito à comunicação no país. Para isso, estão criando um Projeto de Lei de Iniciativa Popular (Plip) que vai precisar de 1.3 milhão de assinaturas para fazer com que a liberdade de expressão em nosso país possa finalmente ser um direito de todos.

Uma vez um político me disse que estávamos sós nessa luta.

Parece que ele estava errado.

Engarrafamento e civilidade

31 Mar 2013 Categoria(s): AnaCrônicas

O Uno vemelhinho faz.

A caminhonete pretona que carrega dois belos cavalos, dirigida por um sorridente cidadão bigodudo também faz.

O carrão de luxo, com seus misteriosos passageiros escondidos pelo vidro fumê não se furta de fazer.

O chevette das antrolas, caindo aos pedaços.

A motona.

A motinha.

A doblô dirigida pela mocinha loirinha de óculos escuros da moda.

A SUV arcondicionada que leva a familia feliz de volta de um feriado mais feliz ainda.

Faz, faz, faz, faz.

Faz também.

Há algo de insalubre numa sociedade que acha natural usar o acostamento para driblar um engarrafamento na estrada.

Enquanto o Carnaval não chega

29 Jan 2013 Categoria(s): AnaCrônicas

Enquanto o Carnaval não chega, a gente pensa nas fantasias. Compra tecido, manda fazer. Ou simplesmente tira aquele ‘saco de carnaval’ do fundo do armário e deixa as roupas descansando na varanda para tirar aquela catinga de guardada. Faz plano do que vestir em cada um dos dias. A gente pensa na irreverência, no conforto, nas conversas e risadagens que as vestimentas carnavalescas podem trazer. Em como levar o dinheiro da cerveja e em como esconder o do taxi. Escolhe o calçado-amigo-vítima do ano, que corre um sério risco de ser enterrado como mártir ao final da folia.

Enquanto Momo não vem, a gente fica ligado, acompanhando a divulgação das programações. Do Recife Antigo, do Fortim do Queijo, dos polos descentralizados. A gente confirma que nossos blocos preferidos estão confirmados e procura saber em que lugar da agenda consegue encaixar aquele par de agremiações que foram criadas numa mesa de bar semana passada.

Enquanto a folia não começa, a gente enche o congelador de comida congelada e presta atenção para que não falte nada de simples preparo e rápido consumo: sucos, queijos, ovos, pão e aquele pedacinho de chocolate que fica escondido porque você sabe que em algum momento vai ter aquela vontade irresistível de “alguma coisa doce” antes de dormir. Se for receber hóspedes, é hora de contar os colchões e dar uma reforçada no estoque de papel higiênico.

Enquanto Vassourinhas não toca, a gente garante os sacos de confete, serpentina y otras cositas más. Resolve o que fazer com as crianças e reserva alguns horários para ensinar carnavalismo à garotada, escolhendo sempre blocos menores, que saem na sombra, longe dos principais polos da folia.

Enquanto não soam os clarins, a gente vai soando por conta própria em casa e no emprego. O rádio só toca frevo das antrolas e a galera das internéticas fica procurando aquele ‘lado b’ que não conseguiu ouvir no carnaval do ano passado.

Enquanto a farra come solta, o serviço vai devagar. Na agenda de trabalho, reuniões de planejamento e planilhas de execução orçamentária convivem quase harmoniosamente com ‘tirar as medidas do vestido’ ou ‘procurar uma peruca verde’. As discussões sobre política, futebol e economia dão lugar às pendengas foliescas.

Qual será o melhor bloco? Quanto dinheiro o governo deu pro Galo esse ano? Qual será a fantasia mais bacana? E orquestra mais rocheda? Quantas vezes será que “Madeiras do Rosarinho” vai tocar? E quantas vezes você vai ter paciência de escutar?

Enquanto o Carnaval não chega a gente vive e revive os dias de folia na cabeça, criando expectativas que têm tudo para serem frustradas, mas que darão lugar às surpresas que fazem cada ano diferente do outro.

E automaticamente melhor.

De ética, cidadania e futebol

8 Jan 2013 Categoria(s): Suor

Vamo falar bem sério, mesmo sabendo que o futebol não tem lá essas seriedades todas.

Não é de hoje que a gente faz vista grossa para os históricos desvios éticos que rolam nas entranhas dos nossos clubes. Até as arquibancadas sabem que são raras (existem?) as agremiações em dia com o pagamento de funcionários e impostos, que não têm pendengas trabalhistas, que cumprem à risca o Estatuto do Torcedor.

Se a gente às vezes reclama do “cai cai” que muitas vezes é vendido como se fosse a “malandragem brasileira”, a gente não pode deixar de abrir os olhos pra o que muitas vezes acontece fora dos gramados. Convido alguém a conferir, nas carteiras de trabalho, quanto ganham os jogadores de futebol do Brasil. Quem olhar vai perceber – se quiser – que a maior parte dos ordenados não passa pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas trata-se dos chamados “direitos de arena” que dizem respeito às transmissões de televisão.

É ilegal? Não sei. É feio? Talvez.

Só com o fisco, na metade do ano passado os times brasileiros tinham, juntos, um pepino de quase 2 bilhões de reais. É isso aí, deixa eu dizer de novo. Dois bilhões de reais.

Esses mesmos clubes que amamos tanto também pecam pela falta de transparência no uso dos recursos que continuam recebendo inclusive de programas governamentais, como é o caso aqui em Pernambuco do Todos com a Nota – pelo qual não são obrigados a dar nenhuma contrapartida além dos ingressos para as partidas.

Tudo bem. Na maioria das vezes, as dívidas são antigas. Às vezes até impagáevis.

Tudo muito bem. É muito difícil se adequar à legislação e ainda manter uma equipe competitiva.

Tudo quase mais ou menos bem. Quase todo mundo, em quase todo o país, quase sempre fez as coisas desse jeito e quase nunca alguém faz questão que seja de outra forma.

Essa semana fiquei triste com uma informação que me foi enviada pelo amigo rubro-negro Rafael dos Santos. Dizia a notícia que o patrocinador mais visível da camisa do Sport, a construtora MRV, havia ingressado na Lista Suja do Ministério do Trabalho em que constam as empresas que haviam sido flagradas fazendo uso de trabalho análogo ao escravo. E que por isso, inclusive, ficou – até que saia da lista – impedida de obter novos financiamentos da Caixa Econômica Federal.

Naturalmente a empresa se defende, diz que fará esforços para ser excluída da lista. Mas ainda tá lá.

Não sei quanto o Sport recebe desse patrocinador. Imagino que seja um recurso importante para um time em construção que este ano vai lutar para vencer as competições do primeiro semestre e voltar à primeira divisão no segundo.

Ter estampada na camisa a marca de uma empresa que consta da lista suja de trabalho escravo do Ministério do Trabalho é ilegal? Certamente não.

Mas que pega mal, pega.

Malucos para fazer um filme

18 Dec 2012 Categoria(s): Zuvidizôio

Acabei de fazer uma modesta doação para a campanha de financiamento coletivo do filme “Malucos de estrada: a reconfiguração do movimento hippie no Brasil”. Trata-se, no dizer do próprio realizador Rafael Lage, de “uma iniciativa inédita que busca esclarecer a sociedade sobre a riqueza de valores deste universo cultural e colocar em discussão o atual processo de repressão que os artesãos vêm sofrendo.”

Ele não fala em vão. Com a experiência de quem passou bons anos viajando pelo Brasil, sustentando-se principalmente com artesanato e malabarismos, sentindo na pele e na barba a dor do preconceito e a violência que sofre quem resolve viver diferente, Rafael apoia-se na fotografia e no audiovisual para mostrar pra todo mundo que quem não se parece com você também tem direitos, sonhos e paixões. E que merece mais respeito.

Conheci Rafael enquanto editava uma matéria para o programa Pé na Rua em que ele contava sua história. O vídeo, de pouco mais de cinco minutos, faz a gente pensar três vezes antes de julgar aquela rapaziada (“hippie?” “andarilha?” “viajante”) que você certamente já encontrou por onde andou.

Imagino com esperança o que ele não aprontará num longa.

Se eu fosse você eu contribuia também. Basta ir em www.mobilizefb.com/malucosdeestrada e mandar brasa.

Recado da diretoria

3 Dec 2012 Categoria(s): AnaCrônicas

Os partidos políticos de todas as cores e tamanhos, com seus ideias, projetos de governo, princípios e práticas;

As igrejas das mais diversas denominações. Dogmas, mandamentos, fundamentos e ensinamentos. Ovelhas e pastores. Fiéis. Mães, pais e filhos de todos os santos. Sermões, trabalhos sociais, orações e explicações do sobrenatural.

Os clubes de futebol e suas paixões, multidões e gritos de guerra;

As organizações não governamentais, associações culturais, clubes de mães, grupos da juventude e movimentos sociais. Com suas lutas, causas e bandeiras. Marchas, místicas, planos estratégicos institucionais. Missões, visões, objetivos gerais e específicos. Atividades, metas e resultados.

Os sindicatos e seus códigos de ética.

As empresas de pequeno, médio e grande porte e suas declarações de responsabilidade sócio-ambiental. Planilhas de receitas e custos. Lucros reais ou presumidos. Planos de carreira. Cargos e salários. Benefícios. Ticket combustível e alimentação. Bônus e Planos de participação os lucros e políticas de transparência.

Não, nenhuma dessas instituições está autorizada a emitir certificados individuais de ética, idoneidade, seriedade e compromisso social.

Sem mais para o momento, encerro renovando votos de alta estima e elevada consideração.

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