Digo logo que isso não foi com ninguém que eu conheço. Mas foi assim.
O telefonema é entre uma jornalista que produz um programa de televisão e um assessor de imprensa de uma convidada a participar como entrevistada.
PRODUTORA – Recebi seu email confirmando a entrevista. Obrigada.
ASSESSOR – Ah, que nada. Disponha.
PRODUTORA – Olha, só faltaram as perguntas…
ASSESSOR – Como assim?
PRODUTORA – As perguntas, ora. A gente precisa que você envie 15 perguntas pra a gente passar pra a entrevistadora.
ASSESSOR – Como assim?
PRODUTORA – Você pega e manda pra a gente 15 perguntas pra a gente perguntar e a entrevistada responder.
ASSESSOR – E é?
PRODUTORA – É, né? Senão, como é que a gente vai saber o que perguntar?
O tempo passa, o tempo voa. O assessor rabisca umas perguntas, envia por imeiu. Novo telefonema.
PRODUTORA – Tudo bom, Fulano. Vê, você só mandou doze perguntas.
ASSESSOR – É que Sicrana fala muito, eu acho que vocês conseguem desenrolar. Ela é muito gente fina, vocês vão ver.
PRODUTORA – Mas rapaz, você quer me quebrar? Eu te peço 15 perguntas e você me manda só 12?
ASSESSOR – Sério mesmo. Perguntar não é a tarefa de vocês não?
PRODUTORA (já perdendo a paciência) – Você quer me ensinar a trabalhar? Eu sou jornalista diplomada!
ASSESSOR – Avalie se não fosse…
Coisa boa. Até agora cinco pessoas comentaram o texto aí embaixo. Era um convite ao papo sobre liberdade de expressão. Como eu disse ontem, vou “comentar os comentários” um pouquinho pra ver e a gente continua ou não.
Primeiro, respondendo a Luana Cunha, que pergunta se nessa Bodega existe liberdade de expressão. Aqui, tem. Aqui você pode discordar de mim o quanto quiser, desde que não parta para a baixaria (porque, por incrível que pareça, até a liberdade de expressão tem seus limites).
Agora, isso é aqui, onde raramente passamos dos 300 acessos por dia. Em outros blogs, talvez você não possa dizer tudo o que pensa, não sei. Isso porque cabe ao dono do blog (no caso bodeguístico: eu) escolher o que entra e o que não entra no seu veículo. Eu tou dizendo que você tem liberdade só porque eu quero que você tenha liberdade.
A mesma coisa acontece com emissoras de rádio e tevê que são controladas por empresas (quase todas). É o dono (e só ele) quem define o que vale e o que não vale. Então não podemos garantir que você tenha liberdade para se expressar em nenhuma cadeia nacional de televisão, por exemplo.
Se uma emissora dessas resolver que você é amante de um deputado, ninguém pode garantir que você vai ter a oportunidade de dar sua versão. Sacou? Se um jornalista (sic) der uma notícia dizendo que seu pai é suspeito de ser traficante de órgãos, nenhum jornal é obrigado a reconhecer um possível erro depois que as investigações da polícia tiverem se encerrado.
Enfim, Alberto. Eu sei que há milhares de veículos de comunicação no Brasil, como esta humilde Bodega. Mas aí, com todo o respeito, é ingenuidade sua (e não minha, que sou jovem há muitos anos) imaginar que eles podem competir em igualdade de condições na arena pública. Só porque uma pessoa escreveu alguma coisa e ‘bombou’ no twitter, não pode dizer que inseriu-se dentro do discurso midiático. Isso quer dizer que, no máximo, teve seus “15 minutos de fala” preditos por Warhol.
Compreenda que a liberdade de expressão não é a liberdade de “aparecer” (porque isso é até mais fácil de ser feito mostrando a bunda do que debatendo idéias). Trata-se do direito de falar o que pensa, da forma que pensa, a quem queira, através dos meios que para isso se fizerem necessários.
Se tenho necessidade de dizer alguma coisa para uma quantidade grande de pessoas, invariavelmente vou precisar de um meio de comunicação de massa. No Brasil, ainda (digo “ainda” porque acredito, como Alberto, que a capilarização da Internet pode ter um significado realmente revolucionário) não dá. E dá, claro. Se eu tiver grana, amigo político, amigo jornalista de rede de televisão ou, por algum motivo, tiver um discurso ou uma opinião que interesse a esse jornalista ou a seu patrão.
Quando se fala de controle, de regulamentação, tem muita gente que fica com o cabelo em pé. Acha que se trata de um arroubo autoritário do governo e blablablá. Não podiam estar mais equivocados. Esse “comitê único” é o que existe agora, quando seis ou sete famílias de homens brancos e ricos do sudeste controlam TODAS as redes de televisão. Salvo briguinhas por audiência, essa turma tem interesses muito comuns e posicionamentos políticos bastante parecidos.
Não é curioso que a maior emissora de televisão do Brasil em canal aberto não tenha sequer um programa de debates (salvo em eleições e, raras vezes, sobre futebol?)
Quando se fala em conselhos, por exemplo, se fala na necessidade de se democratizar os mecanismos de outorga de rádios e tevês, de garantir que de alguma forma os diversos segmentos da sociedade possam ser protagonistas de seus discursos através de mecanismos que garantam a diversidade de opiniões – e não o contrário.
Enfim, a coversa é boa. Mas, claro, com uma cerveja gelada e uma cabidela fica muito melhor.
Dia desses me meti (mais uma vez) num acalorado debate com um grande camarada. O tema: liberdade de expressão. Meu amigo vê problemas em diversas propostas da sociedade civil para democratizar a comunicação no Brasil. Ele diz que tem medo do “discurso único” da esquerda e de possíveis limitações à “liberdade de expressão”.
Eu respeito muito esse cara, embora discordemos em quase tudo. Ele acredita que o governo não deve se meter em quase nada e que o mercado é que deve regular praticamente todas as relações econônicas, culturais e sociais. Ainda bem que ele também torce pelo Sport.
Meu amigo, embora seja um cara muito sabido na área da engenharia, disse que não entendia quando eu dizia que nos dias de hoje não existe uma plena liberdade de expressão no Brasil. Nem quando eu insistia que controle social, regulamentação e investimentos em comunicação pública (não estatal) poderiam, de fato, garantir esse direito a todo mundo.
Como – ainda bem – o papo enveredou para temas mais importantes (futebol, cerveja, etc), aproveito agora para tentar (mais uma vez?) redizer o que eu vivo dizendo, procurando ser o mais beabazístico possível.
1- Liberdade de expressão é uma liberdade de todas as pessoas. Sacou? Pessoas. Em tese, todas as pessoas (eu disse “pessoas”) têm o direito de se expressarem livremente. De falarem e serem ouvidas;
2- Na chamada “sociedade da informação” (leia: hoje em dia), o debate “que vale” é conduzido especialmente pelos meios de comunicação de massa – especialmente tevê, rádio, impressos (menos) e, cada vez mais, internet;
3- A maior parte desses meios são controlados por muito pouca gente. Isso porque pra apitar numa rádio é preciso ter muita grana, muito poder político ou os dois juntos;
4- Se muito pouca gente controla a maior parte dos discursos, muita muita gente acaba ficando invisível, calado ou, em alguns casos, equivocadamente representados.
A essa altura da listinha, você pode estar achando o papo muito teórico demais da conta. Então que tal alguns exemplos?
1- Quantas vezes você já viu um índio falando por cinco minutos em qualquer televisão de alcance nacional? Honestamente, você acha que essa turma tem garantida a liberdade de expressão?
2- Recentemente, o jornal O Globo recusou um anúncio (pago) assinado pelo grupo Afirme-se, que defende as cotas raciais. Tá certo, recusou não. Multiplicou por 10 o valor inicialmente acordado quando viu o conteúdo do anúncio. Mesmo que você seja contra as cotas (o que é opinião sua), você acha legal que essa galera seja impedida de divulgar o que pensa?
3- Você pode estar vendo a novela das oito (nove?) e achando legal o marketing social sobre a pessoa paraplégica e tal. Mas quantos programas em rede nacional você conhece em que pessoas com deficiência comandam o show? Um? Dois? Nenhum? Algum em libras? Algum com descrição auditiva?
Você certamente vai conhecer mais exemplos. Se isso aqui fosse uma palestra, eu teria acabado agora minha apresentação inicial. O auditório, iria bater três palminhas (talvez só por educação) e estaria iniciada a parte das intervenções do público. É hora de perguntar, argumentar, discordar, enfim.
Prometo que faço outro texto comentando os comentários – se houver algum.
Convidado pelo Conselho Regional de Psicologia para uma conversa com doutoras e doutores da cuca, às 17h59 eu telefonei para a Servi-taxi. Trata-se de uma empresa que controla aproximadamente 400 táxis. Nesse serviço, é uma das maiores do Recife.
Atende a particulares e faz faz convênios com outras empresas e instituições, como o CRP, que ia pagar meu transporte.
Então tentei ligar uma vez. Disparou.
Tentei duas. Tente três. Mais algumas.
Às 18h06 falei com a simpática e apressada atendente. Dei o endereço, terminei de me arrumar, desci pra esperar o carro.
…
São 18h20. Nada de táxi. Ligo novamente. O telefone dispara duas vezes antes da moça atender.
“Queria só confirmar se o pedido de táxi foi anotado direito…”
A atendente confirma nome e telefone.
“Moço, infelizmente o carro ainda não foi pedido. Estamos com uma demanda muito grande. Vamos estar enviando seu táxi em breve”
“Daqui a quanto tempo vocês vão estar enviando o táxi?”
“Uns 15, 20 minutos. O senhor quer estar esperando?”
“Não tenho escolha, moça. O voucher que eu tenho é da empresa de vocês”.
…
São 18h45. Mais uma ligação.
“Moça, boa noite. Ivan, telefone tal e tal”.
“Ah, moço. Infelizmente ainda faltam três clientes na sua frente. O senhor quer estar esperando?”
…
Às 19h21 chega o carro. Nunca se esperou tanto por um táxi. Com uma hora de atraso, chego no local da palestra e me desculpo. Inútil. Muitos dos presentes também tinham chegado mais tarde. Por também dependerem da mesma empresa.
De hoje em diante, quando tiver opção, Servi Taxi nunca mais.
Tem coisas que são realmente muito engraçadas.
Semana passada, o Casseta Marcelo Madureira, um excelente comediante, deu uma entrevista para a TV Estadão. Começou falando (até bem) de algumas limitações impostas pela justiça eleitoral ao uso da imagem de políticos no período pré-urna.
Depois animou-se. Disse que hoje, no Brasil, é “praticamente impossível fazer humorismo político”. Se ele estivesse falando da concorrência com os políticos, eu ia mais uma vez concordar. Em Brasília, muitas vezes as piadas já vêm prontas e fica difícil ser mais criativo que os de gravata.
Mas não. Disse que a coisa anda difícil por conta do “autoritarismo” do governo. Que “manda recado pra aliviar (nos programas)”. Mais na frente, diz que o Brasil vem sendo ameaçado em seus fundamentos democráticos. “Depois de 25 anos de Nova República, ainda temos que discutir censura”.
Aí ficou parecendo o programa que o artista participa, às terças-feiras.
Claro que temos que discutir censura. Afinal de contas, se a liberdade de expressão é um direito individual, é fácil saber que tem muita gente por aí sendo impedida de dizer o que pensa nos meios de comunicação.
Também critico o governo. Mais pela sua inoperância e suporte à velha mídia do que por qualquer coisa que possa vir a parecer autoritarismo.
Tudo bem. O cara é mais velho do que eu. Deve ter visto muita coisa já.
Mas eu não tenho conhecimento de que, durante as ditaduras (qualquer uma), alguém tinha condições de fazer um “Casseta e Planeta” ou mesmo um CQC da vida. Não sei se, com Geisel no poder, Marcelo Tas, que também se sente censurado, entraria no Congresso pra tirar a (muitas vezes ótima) onda que tira.
Aliás, eu fico aqui pensando… Será que no tempo em que a censura era tarefa do governo, um humorista podia mostrar a cara na televisão pra dizer que está sendo censurado?
Será que a TV Estadão (ou algum outro veículo da chamada ‘grande mídia’) toparia entrevistar alguns grupos jovens urbanos daqui do Recife, alguns povos indígenas e comunidades quilombolas e permitir que elas acham sobre seus jornais, rádios e emissoras de tevê?
Na boa, quem é mesmo censurado no Brasil, seu Casseta?
Algum dia, nos próximos anos ou décadas, o uso e o plantio de maconha será descriminalizado no Brasil. Muito provavelmente, outras drogas também sairão da clandestinidade e o poder público irá transferir os bilhões de reais da repressão para a prevenção e saúde.
Mais cedo ou mais tarde, pessoas do mesmo sexo poderão casar-se ‘no papel’ em nosso país. Terão todos os direitos de quem resolve unir-se a gente do sexo oposto. Poderão adotar crianças sem maiores constrangimentos, serão dependentes no plano de saúde e não precisarão de briga na justiça para ficar com a herança de seus companheiros e/ou companheiras.
Do jeito que a coisa anda, pode até demorar, mas os movimentos feministas vão conseguir a legalização do aborto. O direito a interromper a gravidez nos três primeiros meses de gestação vai ser compreendido e as vidas de milhares (milhões?) de mulheres serão salvas quando elas não irão mais precisar recorrer a clínicas insalubres e a métodos artesanais de abortamento.
As novas tecnologias serão acessíveis a muita gente e isso vai começar a se refletir nas escolhas de cada pessoa e de cada comunidade. Celebridades hoje cultuadas na televisão vão perder boa parte do glamour – até porque, além dos 15 minutos de fama, toda pessoa com acesso à banda larga poderá ter seus 15 mega de fala. Convenhamos, é muito melhor.
É muito possível que as pessoas também comecem a respeitar a natureza, gastem menos água, reciclem mais suas latinhas de Coca-Cola.
Isso tudo vai certamente acontecer.
Eu só não sei es vai dar tempo.