Se você não está estreando nessa Bodega sabe o quanto eu sou louco por futebol.
Então pronto.
Se você não está chegando agora de Marte, sabe que o treinador Dunga anunciou ontem o elenco da seleção brasileira que deverá ir à Copa do Mundo esse ano.
Então pronto também.
Mas eu não vou dar palpite sobre a convocação canarinha.
Tenho minhas opiniões e pitacos. Como torcedor, não concordo inteiramente com o técnico brasileiro. Paciência.
A responsabilidade dele é escalar. A minha é torcer. E, como já disse outras vezes, há muitos anos não me sinto representado pela seleção brasileira. E isso tem muito pouco a ver com quem anda vestindo a camisa nas competições oficiais.
Dito isso, ligo a televisão.
Todo mundo – eu disse todo mundo – tem opinião formada sobre o elenco dunguístico. Repórteres, apresentadores, comentaristas de economia e de política, deputados. Todo mundo que teve a oportunidade de pegar num microfone de ontem para hoje. Gente que não sabe a cor da bola nem as nuances da regra do impedimento não tem nenhuma vergonha de abrir a boca para dizer que fulano e beltrano deveriam ter sido convocados ou que a seleção “não tem a cara do Brasil”, como um jornal estampou em sua manchete principal, numa análise sócio-antropológica profunda como uma tampinha de refrigerante.
Comentaristas das mais diversas colorações não aliviam em chamar o treinador da seleção de cabeça-dura, de teimoso, de turrão, de conservador, de careta e de um monte mais de coisa.
Fico pensando como seria se um cara feito Dunga resolvesse também analisar a imprensa brasileira. Se começasse a questionar as concessões públicas. Se abrisse a boca para, na categoria de cidadão, levantasse ‘a lebre’ da necessidade da regulamentação da televisão, por exemplo. Se pelo menos reclamasse dos horários das partidas, para começar.
Ou, sei lá, se aproveitasse a exposição e a oportunidade pra falar de temas espinhosos, considerados tabus pelos meios de comunicação comerciais.
Será que conseguiria fazer valer o potencial revolucionário do futebol?
Será que poderíamos ser , além de grandes treinadores de futebol, 180 milhões de leitores críticos de mídia, de defensores de direitos, de comentaristas políticos e econômicos?
Bem que seria legal.
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