carta_despedidaLi hoje mais cedo dois comentários de uma leitora que assina como Célia. Todo comentário que chega na Bodega vai direto pro meu imeiu, com o imeiu que a pessoa “comentarista” deixa. Como fiquei interessado em responder a Célia, mandei-lhe um imeiu bem grandão, que me tomou uma meia hora e que vai me deixar acordado até mais tarde hoje.

Só que eu acho que Célia acabou digitando alguma coisa errada, porque o imeiu voltou. Pra não jogar meu trabalho no lixo (e pra dar a Célia a oportunidade de ler minha resposta), publico aqui o que eu escrevi. Pra facilitar a leitura, Célia está em vermelho.

“Oi, Célia, tudo bom?

Vou tentar te responder. Espero que possamos trocar essa idéia e aprender mais um com o outro. Colei teu outro comentário embaixo, pra poder responder tudo num canto só.

> Ivan vc é aquele cara chato de segunda feira meio dia na tv universitária né mesmo?

Sou. Quer dizer, era, porque o programa saiu do ar. Fico contente que você tenha assistido alguma vez e, claro, mais ainda pela visita à Bodega.

> Voce é aquele que nunca consegue nada competindo com os outros no mercado normal confere?

Hmm, não sei se consigo responder direito, mas vou tentar porque respeito tua pergunta. Quer dizer, eu iniciei minha carreira no mercado que você chama de “normal’, que é a mídia corporativa. Trabalhei  em alguns jornais impressos e e aprendi bastante, de certa forma me sentia muito querido e consegui alguns feitos legais junto aos meus colegas. Guardo ótimas lembranças daquele início.

Como muitos colegas, eu comecei no jornalismo porque gostava de escrever, queria fazer alguma diferença, alguma coisa que pudesse valer a pena. Éramos jovens, né? Saí da mídia tradicional para tentar fazer essas coisas, não necessariamente no jornalismo.

> Tem que ter grana do Estado te bancando pois teu universo pouco interessa aos outros.

Essa é mais difícil. Veja bem, o estado, na verdade, nunca me “bancou”. Trabalho há 18 anos e essa é segunda vez que um projeto meu é financiado com dinheiro público. O primeiro é um livro chamado Kanimambo, sobre Moçambique, um país muito interessante em que tive a oportunidade de viver por um ano. Está à disposição, na Cepe. Se você quiser ir lá comprar, o dinheiro fica na Cepe. A minha cota de livros eu já vendi ‘no mercado normal’ e fiquei com o dinheiro. Deu pra comprar um fogão bem legal de seis bocas (foram poucos livros). Quando você publica um livro numa editora comercial, é mais ou menos do mesmo jeito.

Sobre o “meu universo”, eu acho que é muita bondade sua. Não tenho um universo. Tenho idéias que não são nem só minhas. E tem gente que as acha interessante, tem gente que não acha (como acontece no campo das idéias). É fato que muito do que eu acredito e gosto não chega a muita gente, por vários motivos. Mas aí eu realmente não tenho como dizer se é questão apenas de falta de interesse.

> Voce tava vendo tv e “descobriu” que podia fazer tv tambem.
Mais ou menos. Minha experiência em audiovisual é realmente limitada. Mais recentemente, através do trabalho no Centro de Cultura Luiz Freire (www.cclf.org.br) fui mais convidado para a tevê do que antes, normalmente para dar opinião – o que, convenhamos, não é de fato “fazer tevê”, é apenas dar opiniões “na tevê”, coisa que aliás eu acredito que qualquer pessoa deveria ter o direito de fazer. Inclusive eu e vc.

> Ligou para seus amigos de partido e pimba, grana publica para voce bancar tuas viagens.

De fato, nunca fui filiado a nenhum partido, embora (como você também), tenha o direito de ser. A idéia do Pé na Rua surgiu com uns amigos que têm uma produtora que produz vídeos para o mercado publicitário e também documentários.

> Será que teu programa é mesmo necessário e causará allgum interesse?

Necessário? Acredito que sim. A gente acha que tem um bocado de gente subrepresentada pela televisão. Se vai causar interesse, já é mais difícil respoder. Eu honestamente espero que sim. É mais um desejo que uma certeza.

>Será que voce já fez algo de interesse público?

Eu e meus comparsas sinceramente achamos que sim, embora possamos estar equivocados. Mas não acho que você queira uma lista de “boas ações”, né?

> Será que não é melhor pegar a grana que vão gastar com tua viagem televisiva e dar sustento a várias famílias, exatamente como nosso presidente faz?

Aí eu já acho que não. Eu acho que a comunicação é um direito como os outros. Então deve ter seu lugar, inclusive no orçamento público (como aliás tem sido feito desde que os meios de comunicação de massa foram introduzidos no Brasil). O que talvez possa ser mudado é a maneira de usar esse dinheiro público. Nesse caso eu acho legítimo que pequenas produtoras, como o Ateliê (que é quem vai produzir o Pé na Rua) tenham tanto direito de acessar esses recursos como as tevês comerciais, por exemplo.

> Se não for assim, tu num trabalha nem em banheiro de rodoviária. tu é mais um esperto no meio da mediocridade reinante.  Perdão pela honestidade, voce deve ser um chefe de família e um cidadão comum mas é isso que voce passa ou não passa! Voce tem uma lábia que derruba até trem!

Aí não tem pergunta, né?

>duas coisas Ivan: vejo meus vizinhos todos os dias e os problemas da minha comunidade também. Posso querer ver o outro lado do mundo? voce fica chateado?

Não fico chateado de maneira alguma. Pelo contrário, fico contente. Se você quiser inclusive indicar alguém pra ser entrevistado no Pé na Rua eu ficaria bastante contente. Estamos na fase de pré-produção, indo em busca de pautas e mais pautas. Não é pouco trabalho, como você pode imaginar. Temos um quadro chamado “Nossa Cara”, em que damos voz a qualquer pessoa que queira falar um pouco de sua relação com o mundo e com a superação das dificuldades do dia-a-dia. Querendo escrever algum texto aqui pra a Bodega, também fique à vontade. Só que não vou te enganar. Aqui na Bodega eu só  vou publicar se eu concordar. Se eu não concordar, eu sugiro que você mande pra outro blog.

>essa sua preocupação em fazer um programa legal, social e tome papo não é o mesmo discusso de todos que fazem televisão e que na verdade querem mesmo é uma chance de ficar ricos?

Não sei. Não conheço o discurso de todos os que fazem televisão. Muitos que eu conheço admitem claramente que querem mesmo é ganhar dinheiro, o que é mais do que legítimo em se tratando de meios de comunicação comerciais. Eu não posso te fazer acreditar em mim à força, mas quero fazer não só um programa legal. Quero contribuir para que a gente possa ter uma mídia pública forte, além do Pé na Rua. Afinal, essa é minha militância. Enquanto eu conseguir pagar minhas contas com meu trabalho, como tem acontecido há muitos e muitos anos, já estou satisfeito. Meus amigos do Ateliê, inclusive, me conhecem por rejeitar projetos (alguns até bem remunerados) por não querer servir ao contratante.

>Porque todo comuna acha que o Estado tem que banca-lo?

Não sei. Aí você tem que perguntar a todo comuna. Embora seja simpático às idéias do socialismo, não posso me definir como comuna (até sob o risco de ser escrachado pelos meus amigos comunas).

>Voce não acha um absurdo com tantos morrendo de inanição voce brincando de fazer tv?

Não, não acho. Como falei, são direitos diferentes e todos têm que ser contemplados com políticas diferentes. Talvez muitos que sofrem de inanição estivessem diferentes se tivessem (ou suas familias) acesso a educação, saúde, moradia, comunicação… A gente “povo dos direitos humanos” acredita que os direitos são interdependentes. Ou seja, um acaba influenciando diretamente no outro.

>Qual tua experiência nisso ou teu preparo para fazer um programa?

Acho que respondi antes, mas é basicamente um curso de jornalismo, meio de publicidade e alguma experiência dentro e fora de redações em alguns jornais, sites, etc. Em audiovisual, fiz roteiros, apresentação de vídeos institucionais e, é claro, a breve experiência no Sopa, em que às vezes apresentava (e você não gostava). Se bem que eu acho que não precisa de tudo isso pra fazer um programa não. Há casos de gente com muito menos educação formal que faz programas muito legais em toda parte do mundo, inclusive aqui.

>Porque voce se acha melhor que outros que batalham a tanto tempo por um espaço na Tv e voce porque é comunista passa a vez de todos esses?

Não me acho melhor do que ninguém, não. Você acha que eu estou “passando a vez” de alguém? Eu prefiro acreditar que eu faço parte de um grupo (grande) que está na fila, esperando a vez chegar.

>Sou mais o Faustão!
Tá no seu direito. Eu e ele temos até algo em comum: a barriga. Mas também tenho meus preferidos na TV comercial.

Antes que você se pergunte: não, eu não tenho todo o tempo do mundo para responder a todos os comentários que botam na Bodega. Mas alguns poucos, como o seu, me chamam mais a atenção pela qualidade do texto, pelo teor das críticas ou pela forma como são colocadas. Aí eu não resisto e vou puxar conversa…

Um grande abraço e volte sempre.
Ivan