A galera vai chegar pelo Cais José Estelita por volta das 10h. Mais uma vez, vão ocupar a área, divertir-se, ouvir música, curtir a brisa do mar e dizer que desejam viver numa cidade diferente, em que as áreas públicas sejam privilegiadas, em que bicicletas tenham o direito de ir e vir e em que edificações cumpram com suas funções sociais. Sim, quem acha que o #ocupeestelita é só para espinafrar o projeto Novo (sic) Recife, tá mais enganado que assinante da Veja.
Claro que o grande mote do levante é a iniciativa que quer (e provavelmente vai) construir uma túia de prédio na beira da maré. Mas acreditem, a vontade de indignar-se coletivamente dessa turma tem tudo para desencadear um movimento muito forte de transformação – bastante bem vindo e necessário por essas bandas.
Mais uma vez torço pela – e convoco – a ida do pessoal que se organiza na periferia. Rede de Resistência Solidária, Mangue Crew, Caranguejo Uça, Mabi, USI, Bombando Cidadania, Fórum Estadual da Reforma Urbana, a galera do Orçamento Participativo, das rádios comunitárias, das pessoas com deficiência… É hora de estar todo mundo junto. A turma da palafita e a do apartamento. A do elevador e a do muro de arrimo. O da bicicleta-pra-passeio e o da magrela-único-transporte. É, no mínimo, uma bela oportunidade de juntar as crianças, falar sobre a vida e promover uma interação que – numa cidade compartimentada – não seria possível de outra forma. E aí, rapaziada, a semente da mudança não tem como não germinar dicumforça.
Ver essa movimentação – e um ou outro que insiste em dizer que o povo (sic) demorou muito para mostrar indignação – me faz lembrar do processo da Conferência das Cidades, realizada no Recife em 2005. O principal resultado desse momento foi (ou deveria ser) o novo Plano Diretor do município.
Pois bem, nessa época* os movimentos populares, encabeçados pelo Fórum Estadual da Reforma Urbana, botaram quente. Mobilizaram muita gente e aprovou tudo o que quis. O documento final foi tão bom (para os movimentos), que no dia seguinte o então prefeito João Paulo disse que mudaria o texto temendo que seu conteúdo não fosse aprovado pela Câmara dos Vereadores. Apenas um ano depois, a proposta foi enviada para o parlamento municipal. “Era bem melhor do que o Plano de 1991, mas bem diferente que as entidades queriam”, recordou-me um querido amigo, à época assessor da secretaria de Planejamento.
Na Câmara, o projeto comemorou dois aniversários e só foi aprovado no fim de 2008. Mesmo assim, muito dele nunca foi regulamentado. Ou seja, não vale nada. O mesmo bróder lembra de alguns pontos que avançaram, mas não estão valendo. “Medidas anti-verticalizantes como Outorga onerosa, IPTU progressivo e outros instrumentos estão apenas no papel. E a Lei de Uso do Solo deveria ter sido revisada depois, o que não aconteceu”. Ou seja: sozinhos, embora numerosos, os movimentos populares ficaram roucos de tanto gritar e foram atropelados pelo mercado, pelo fisiologismo e pela falta de compromisso da galera que assina (e deixa de assinar) as leis.
Naquele tempo, não tinha rede social, não tinha #ocupecoisanenhuma. Não tinha blog nem tinha espertofone que tira foto em sépia. Não tinha tuíter pra ficar no cangote do vereador nem tinha tanta classe média interessada em tocar o terror revolucionário.
A notícia ruim é que, se a turma do feicebuque já existisse naquela época, tenho a impressão que a atitude do prefeito e dos vereas seria um pouco diferente. A boa é que existe campo para se avançar. E que se for possível juntar os diversos recifes numa brincadeira só, não vai ser difícil todo mundo perceber que tá todo mundo no mesmo barco – lute você contra a violência, pela liberdade de expressão, legalização da maconha ou ciclovia.
Mais uma vez vou tomar um banho caprichado, um café reforçado e vou dar uma chegada por lá. Sabendo chegar, se eu fosse você eu iria também. Afinal de contas, se a moda agora é lutar por direitos, cafona é ficar de bobeira em casa nesse sábado de sol.
é isso, Ivan. Lá nos encontraremos!