Passos firmes, olhava um horizonte que sorria para ele. Deixava a semiescravidão da cana, o sol forte no quengo, o facão que encaliçava as mãos e o barracão onde trocava seu trabalho severino por uma cesta básica. Arroz, feijão e farinha que calariam o choro de fome dos três meninos por semanas, talvez um par de meses.
Ia só, olhava para frente. E foi deixando seus quilos no meio do caminho. Tinha orgulho e queria mais da vida do que os R$ 314 mensais para cortar três toneladas de cana por dia.
Seguia. Queria asfalto, prédio, cimento.
Andava e mostrava que os pés grossos do mato também resistem ao pixe urbano.
Pedia emprego: não.
Abrigo: não.
Conforto: não.
Comida: não.
Turista indesejado, passo a passo ia sentindo o estômago alargar-se dentro de sua barriga já murcha. Estava vazio por dentro e a água que bebia era a que conseguia fazer com a própria língua roçando o céu da boca.
A cada ‘não’ que ganhava na nem-tão-grande cidade, sua Vila de Santa Fé ia ficando mais bonita. O céu do sítio, mais azul. A terra, mais fértil.
Parado na frente de uma loja de eletrodomésticos, ouviu um engravatado falando de meritocracia. Muito honestamente, não compreendeu. Mas achou quase uma autoridade aquele senhor de cabelos brancos que não podia diferenciar uma algaroba de uma aroeira.
O orgulho foi quem caiu primeiro. Chegou ao chão segundos antes de a primeira lágrima evaporar no parelelepípedo.
Pernas tremiam, secas.
Joelhos não mais aguentavam o corpo tão pesado e tão leve. Seco.
As mãos, perdidas, procuravam sustentar-se em algo que já não existia.
E o corpo todo foi de encontro à terra dura da calçada, atrapalhando um Fiat que queria dar ré.
Agora deitado, o homem passava quase despercebido. E derrubava a todos, que caímos juntos – mesmo sem saber.
Manuella Bezerra de Melo
24 de February de 2010 às 2:51 pm
Eu ia comentar sobre seu texto, mas fiquei tão emocionada com a sua proteção contra spam que desisti. Tem que saber muita matemática pra comentar aqui. Sendo que eu levei pau no segundo ano científico (ainda se usa isso?), justamente porque não aprendi PA e PG ;)