Sempre acho sadismo quando alguém me pergunta: “como foi a viagem?”.

Propriamente dita, a viagem nunca é boa.

De carro, de trem, de ônibus, de avião, não importa. O percurso que vai de um destino ao outro não é melhor do que não fazê-lo.

A viagem é o sacrifício que a gente faz para ir a outros lugares.

Pois vejamos. De avião, fora chegar antes no aeroporto, tem todo aquele esquema de fila-do-check-in, fila-do-raio-x, fila-do-embarque. Áreas comuns cada vez menos convidativas, lanches caros e ruins. Dentro da baleia aérea, parecemos todos sardinhas. Eu tenho certeza absoluta que minhas pernas não estão crescendo, mas o aperto é maior a cada viagem. Isso sem falar na comida cada vez pior e mais rara que se serve lá dentro. Mesmo na primeira classe, companheiro. Passo e vejo poltornas confortáveis e atendimento de primeira. Mas não trocaria nada disso pela mesma quantidade de horas deitado na minha própria cama. Ver-se a quilômetros de altura, por cima das nuvens, perde completamente a graça depois dos primeiros 15 minutos.

No carro, quem dirige não relaxa. Quem não dirige não encontra posição adequada, principalmente se a viagem for longa e existir alguma esperança de se tirar uma soneca. Isso sem falar de trânsito, calor, barbeiragens e bizarrices em geral. Mesmo transportes tidos como mais confortáveis como trens ou alguns ônibus deixam a desejar. Sabe bem quem um dia precisou usar o banheiro em movimento, especiamente quando o busão passa num buraco e dá aquele catabiu estatológico no fedorento quartinho de trás.

Ler bons livros, ver bons filmes, fazer palavras cruzadas ou até um carinho especial na boyzinha ou boyzinho que estiver ao seu lado podem amenizar a chatice do processo. Isso tudo, porém, não passa de redução de danos. Todas essas atividades podem ser melhor realizadas em contextos diferentes e lugares mais interessantes que uma cabine em movimento.

A melhor parte de qualquer viagem é quando ela termina.

Naturalmente existem cruzeiros marítimos, trilhas, percursos cenográficos e diversas idas e vindas que contrariam a regra. Paisagens deslumbrantes, cenas do poéticas do cotidiano, exercícios físicos ricos em adrenalina e endorfina A experiência de se passar por alguns cenários na velocidade do transporte pode ser uma coisa muito bacana. Mesmo assim, quando o percurso vale mais do que o destino, não o chamamos de viagem: é passeio.

Fora isso, viajar é mesmo uma merda. Mas vale a pena demais.