humorsemcensuraSempre legal uma mobilização.

Ver gente na rua, usando sua criatividade para protestar contra uma coisa que acha estar errado. Muito bom as pessoas percebendo que o dia a dia é política. Extraordinário ver a galera cavucando as leis, tentando mudar o que é ruim, transformar no melhor.

E foi com esses bons olhos que eu vi os humoristas se organizando e juntando umas mil pessoas na beira da praia no Rio de Janeiro pra protestar contra a lei 9504/97, que FHC conseguiu enfiar goela abaixo da gente. Curiosamente (ou não) a legislação que proíbe os meios de comunicação de “degradarem ou ridicularizarem candidato, partido ou coligação” foi emplacada por um dos políticos preferidos do casseta Marcelo Madureira. Mais curioso ainda é que a peça legal não fala nada sobre humor. Só que parece senso comum que não dá pra fazer humor sem degradar ou ridicularizar alguém. Enfim, deixa pra lá.

Convocada através de algumas das maiores redes de comunicação do país, a passeata – cá pra nós – deve realmente ter juntado muito mais do que mil pessoas. Só que a maioria dos presentes preferiu curtir o domingo de sol na praia do que usar o nariz de palhaço da galera que protestava. Em meus dez anos de protestos (a maioria deles pela liberdade de expressão), tranquilizo os humoristas. Já perdi muito ativista que parou no meio do caminho pra tomar cerveja. Realmente não dá pra competir com Copacabana.

Outro mérito dos humoristas: protesto foi amplamente noticiado. Jornalões, rádios, telenoticiários – e até o Fantástico! Verdadeira aula de jornalismo. Imagens fechadinhas pra aumentar a sensação de multidão e várias sonoras com muitas opiniões diferentes: todas contra a lei. Ninguém reclamou do engarrafamento, do calor, de mais nada. Quem fez a lei (quem foi mesmo?) e quem a aplica (quem?) não tiveram a chance de mostrar a cara. Unanimidade muito sabida na revista de variedades dominical.

Hoje é segunda e não tenho dúvidas que vamos ver mais em diversos noticiários televisivos, além do excelente CQC.

Aliás, digo de novo. Se eu estivesse na praia e viessem me entrevistar, eu também seria a favor da manifestação pró-riso.

Se me dessem tempo, talvez falasse até um pouco mais, botava um temperinho na parada.

Diria que este governo (assim como o que veio antes dele) já fechou milhares de rádios comunitárias Brasil afora. Que uma tuia de comunicador comunitário, sem as estruturas de grandes empresas que os defendam, respondem a processos até hoje porque insistem em usar microfones e transmissores para dizer o que pensam. Que diversos movimentos sociais seguem invisibilizados por boa parte da população porque não têm grana para comprar anúncio no horário nobre da novela das oito.

Que liberdade de expressão é um direito de todas as pessoas do mundo, e que deve ser exercido através da oportunidade de utilizar-se com equidade dos meios de comunicação social. Que não é apenas um privilégio daqueles que trabalham em empresas de televisão, rádio e jornal, sejam jornalistas, humoristas ou vigaristas.

Que ao longo dos últimos dez anos, a sociedade civil organizou-se e já botou dezenas de milhares de pessoas nas ruas, em várias partes do país, para protestar contra esse absurdo.

E que já tá na hora de Marcelo Tas acordar pra isso também.

Em tempo: antes que me acusem, informo que neste texto não existe nenhuma pitada de ironia. Nenhumazinha mesmo. Bom, talvez uma pitadinha. Mas uma só.