Não me interprete mal, moça. Eu admirei muito a carreira artística de Michael Jackson e estou ouvindo Bad agorinha mesmo.
Mas é impossível não me lembrar daquele maio de 1994.
Eu começava a engatinhar no jornalismo. Fazia estágio na assessoria de imprensa do Detran, escrevendo textos em wordstar num computador muito fera. Tela preta, letrinhas verdes.
O domingo tinha sido trágico. Morre Ayrton Senna, um dos maiors astros da fórmula um mundial. Um dos mais legais, mais carismáticos, mais fofinhos e gente finas. Na quinta, pronto. O país parou. Choro, lágrimas, milhões de pessoas acompanhando o féretro. Em casa, no trabalho, nas ruas muito muito congestionadas de São Paulo. E eu, que naquele dia só queria mostrar serviço, me dei de mal. Acho que traumatizou.
Corta.
Eu não queria estar na Califórnia hoje (eu disse: hoje). Na verdade, tou até contente por não ter uma televisão na minha frente.
Pegue Ayrton e multiplique pelo mundo. Eleve à elvispresleyana potência. Coloque isso num contexto de multiplicação de novas mídias e de culto sem precedentes às celebridades.
Hoje, dona Maria choraminga a “perda” de Michael Jackson como se fosse um parente. Com as mãos sujas de detergente e gordura, esfrega os olhos já vermelhos de dor. Seu Zé (e seus equivalentes internacionais) estão sorumbáticos, ouvindo e assistindo às homenagens e mais homenagens feitas ao Rei do Pop.
Tem menino que mijava nas calças quando Thriller foi gravado já botou mensagenzinha no twitter dizendo que não pôde conter as lágrimas.
Não vi, possivelmente não vou ver. Mas imagino que tenha sido um espetáculo à altura. Afinal de contas, alguém precisaria botar no bolso ao menos uma parte da grana que se esperava ganhar com os shows cancelados com a morte prematura (sic ??) do ídolo.
Deve ter gente lamentando a falta de mais “ingressos”. Gente imaginando “porque é que eu não pensei nisso antes?”.
De uma hora para a outra, tudo é festa, luzes, show. E o pau comendo por trás das câmeras com um séquito de cupinchas brigando pela guarda de três crianças acompanhadas de uma herança milionária.
Bem disse Pezão: eles pensam o que? Que o cara vai sair do caixão e fazer o moonwalk?
Eu que sou um cara muito mal humorado não vejo graça nenhuma.
Cátia
11 de July de 2009 às 9:17 am
Belo texto Ivan, obrigada!
Eu assisti uma parte do show de horrores, na metade meu estômago já estava embrulhado demais daí desliguei a tevê. A ridícula da Mariah Carey(não sei se é assim que se escreve) com seu cabelo todo escovadinho, e um decote que ia quase ao umbigo, um Lionel Ritchie decadente. Tudo muito patético, eis que chega o cara num caixão banhado a ouro (fechado, e sei lá se tinha alguém lá dentro!) faltando metade do cérebro. Desliguei antes que eu vomitasse.
Lamentável, triste espetáculo.