Tava na hora de fazer um checape.

Eu nem sabia direito o que era checape. Mas todo mundo dizia que eu tinha que fazer. “Passou dos trinta, tem que ir no clínico”, a turma dizia.

Mesmo sem admitir que havia passado dos trinta, acabei marcando e chegando lá.

Qualquer visita a um estabelecimento de medicina é sempre antecedida por um belo chá de cadeira, que tomei sem açúcar ou adoçante.

Num dado momento, uma moça me levou para uma sala e fez o que pareceu ser um exame cardíaco. Aferiu minha pressão e apertou uns pitoquinhos numa máquina que por sua vez cuspiu um gráfico de meus batimentos – ou algo que o valha.

Voltei para à sala de espera para ver mais alguns episódios do Pernalonga antes de o doutor me chamar, agora de vez.

“E aí, qual é o problema?”, disse o De Branco olhando fixamente para minha ficha. Tenho pra mim que na verdade estava conferindo a validade do meu plano de saúde.

“Vim fazer um checape”

“Sei… Está sentindo alguma coisa?”, continuou, agora rabiscando quem sabe a lista do que teria que comprar pro feriado em Serrambi.

“Não, nada…”

Ainda olhando para seus papéis, o dotô calou-se e danou a caneta pra cima, preenchendo fichas e mais fichas. Compenetrado em seus escritos, não falava nada. Talvez assoviasse um pouco, já não lembro. Eu passava o tempo lendo cartazes contra o cigarro que decoravam o consultório. Eu, que nunca fumei, fiquei com vontade de dar um trago.

“Pronto”, me estendeu um formulário todo preenchidinho.

“Pronto?”

“Pronto. Você faz esses exames aí e volta pra a gente dar uma olhada”.

“Pronto?”

“Pronto”.

“Então tá”.

Durante uma semana percorri laboratórios que me furaram o braço e tiraram meu sangue. Um deles me fez correr numa esteirinha. Outro me pediu um copinho de xixi. Ainda bem que não me pediram cocô. Nunca consigo fazer cocô num copinho.

Os resultados vieram na internet e eu, feliz, voltei à clínica. Devidamente laboratoriado, talvez conseguisse dois dedinhos de prosa.

O chá de cadeira dessa vez foi sem televisão. Nas revistas que encontrei, li uma matéria sobre uma nova droga para a fibromialgia. Não entendi nada e li duas vezes. Foi bom.

Veio a moça. Pressão, maquininha, papelzinho com um gráfico do meu coração (ou algo que o valha).

“O doutor já te espera”

Entrei triunfante, com os exames impressos na mão direita.

No meio do “como vai”, o nobre profissional da saúde pegou a papelada, sentou-se novamente e leu com afinco.

“Tudo óquêi. Mas teu triglicerídio tá alto”

“E é?”

“É”

“E isso faz o quê?”

“Faz mal”

“Sei… E o que isso significa?”

“Que é bom cortar frituras e massas”

“Por quê?”

“Porque teu triglicerídio tá alto”

“…”

“E você também tá acima do peso”

“Sei…”

“Então é isso. Regimezinho e daqui a um ano você repete os exames”

“Repito, né?”

“Repete”.

Não repeti. Não voltei. De lá pra cá, tenho feito meus checapes na frente do espelho.

A resposta vem igualzinha à do doutor.