Fui lá na rua e vi um monte de gente.
Que caminhava absorta como gado em direção ao matadouro.
Que pulava buracos, saltava sacos de lixo com o automatismo dos jogos eletrônicos.
Todos os dias os mesmos buracos, os mesmos sacos, as mesmas ruas. Vídeogame, fase um. Fase dois. Fase três.
Na fase quatro, painéis com rostos sorridentes de candidatos e candidatas brotavam no asfalto, aumentando o grau de dificuldade e mudando em absolutamente nada o enfado de quem os desvia.
O relógio dizia que eram 8h11 da manhã e grupinhos se reuniam em volta da carrocinha de cachorro-quente para comer maionese misturada com coca-cola. A dose diária de açúcar com óleo iria alimentaria a apatia por mais alguns momentos.
Olhos e bocas denunciavam um trajeto quase automático, sem bondias e comovais.
Num único sinal de alegria, um senhor de camisa abotoada enchia a boca de cuscuz com molho sentado na calçada de um pega-bebo. Olhou para o garçon-dono-faxineiro e soltou, como que num desabafo: “Como Deus é bom!”
A esquina tinha cheiro de monóxido de carbono misturado com coxinha de galinha.
Em mais um dia de quarta.
Lea Cavalcanti
1 de September de 2010 às 11:45 am
Esse cotidiano é muito ‘cotidiano’ né?
Hoje eu amanheci pensando: levantei do meu quadrado (minha cama), sairei do meu quadrado (meu apartamento), entrarei num quadradinho que sobe e desce, depois dirigirei meu quadrado vermelho (boleado, sim), irei para o grande quadrado (o prédio), entrarei no mei quadradinho (sala), passarei o dia na frente do meu quadrador, depois volto para o meu quadrado vermelho etc etc, tirando os pratos e copos (redondos) tô de saco cheio da minha vida quadriculada.
Lea