Pior do que a matéria (oi?) que o CQC levou ao ar neste domingo sobre o (já vergonhoso) aumento  do salário dos vereadores do Recife, só a reação dos parlamentares que foram procurados pela imprensa para repercutir a história. De acordo com uma matéria que eu acabo de ler, alguns deles estão pensando em processar o programa, aumentando assim o seu vexame.

Se o humorístico é de muito má qualidade, como eu venho dizendo faz tempo, muitos de nossos representantes também não são essas joinhas todas. Alguém vai dizer (como disseram muito nos comentários bodeguísticos de ontem) que a palhaçada em rede nacional “alertou os eleitores” para que escolham melhor seus candidatos nas eleições desse ano. Eu continuo duvidando e, como já disse, essa onda de “político nenhum presta” nunca levou ninguém a lugar nenhum.

Mas vamos lá. Mais uma vez os municípios estão sendo convidados a eleger seus vereadores e esquivar-se dessa responsabilidade não torna a gente muito diferente do cara que fugiu do repórter (?) mandado por Marcelo Tas. Se o poder econômico, a influência das igrejas e as regras enviesadas do jogo político continuam dando as cartas, talvez seja porque até você, cidadã de bem, está muito mais preocupada em saber quem vai ficar com quem na novela do que o que se passa nas casas legislativas.

Dando uma breve olhada no site da Câmara dos Vereadores do Recife, dá pra se ter uma ideia de quem colocamos por lá quatro anos atrás. As informações que se seguem foram tiradas utilizando como fonte apenas os textos disponibilizados pelos próprios edis na aba “biografia”. Então eu já começo dizendo que oito dos 37 titulares da Casa José Mariano nem se deram ao trabalho de preencher esse campo. Entre eles, Romildo Gomes (PSD), que tem nove mandatos nas costas e ‘decidiu’ que este ano vai abrir mão do emprego e tentar emplacar seu filho.

Aliás, hereditariedade é uma coisa que pega muito por ali. Pelo menos que dez vereadores são parentes de outros políticos que, em algum momento de suas vidas tiveram mandatos os mais diversos. Dos que socializaram informações pessoais, seis afirmam ter ligações com diferentes igrejas cristãs, inclusive o mais votado no pleito passado – André Ferreira (PMDB), integrante da Assembleia de Deus e também filho de deputado estadual. Algumas biografias são curiosas, como a do  Almir Fernando (PCdoB), que dedica o maior parágrafo do texto a seus feitos como futebolista. A médica Vera Lopes (PPS) aproveitou para colocar todos os sete empregos que tem, em hospitais, clínicas e postos do PSF. Sinceramente espero – pela própria saúde da vereadora – que ela tenha se licenciado de alguns antes de assumir o cargo eletivo.

Proposições à camara são parte relevante desse ofício. Só que, de acordo com o projeto “Excelências”, a maior parte delas são as consideradas “sem relevância” como homenagens, batismos de logradouros e sessões solenes. Romildo Gomes (108), o petedobista Marcos di Bria (87) e Vera Lopes (75),  são campeões das homenagens de 2002 pra cá. O mais-velho leva vantagem também por estar no cargo por mais tempo. De acordo com o projeto, apenas quatro vereadores têm mais propostas ‘relevantes’ que ‘irrelevantes’: Aline Mariano (PSDB), Menudo (PSB), Maré Malta (PSD) e Jairo Britto (PHS).

No nosso sistema de governo, o poder legislativo municipal tem a função de nos representar diante do poder executivo, elaborar projetos, fiscalizar ações do prefeito e aprovar orçamentos. Naturalmente, o trabalho não se resume a sessões plenárias. Ir às comunidades, organizar e participar de audiências públicas e receber a população em seus gabinetes é dever dessa turma toda que no ano que vem vai passar a ganhar pouco mais de R$ 15 mil. Um bom salário – embora exorbitante mesmo sejam os benefícios, como o anacrônico auxílio-paletó. Enquanto tem gente cumprindo este papel de formas diversas, como o governista Jurandir Liberal (PT) e a opositora Priscila Krause (DEM), muitos preferem gabar-se dos “projetos sociais” que têm, muitas vezes com associações de bairro que vivem de emendas parlamentares. Cá pra nós, não é trabalho de vereador.

Procurar quem possa realizar esta tarefa do jeito que a gente quer é direito de cada um de nós no processo democrático.  Este ano já tem uma galera se movimentando, querendo mudar o cenário da Câmara. Tenho acompanhado diversas pessoas legais que vão tentar uma vaga na Casa José Mariano. Não é difícil encontrar gente fina querendo furar o bloqueio da máquina política. Quando começar a campanha, vou divulgar algumas figuras – novas – que poderiam fazer a diferença.

Quem troca seu voto por um padrão de futebol, um emprego de gabinete, uma festinha bacana, um litro de uísque ou uma conversa de bar perde a oportunidade de escolher. Quem prefere não votar em ninguém, também. Mas isso não quer dizer que perde o direito de reclamar, de pitacar, de incidir. Afinal de contas, a eleição é apenas uma pequena parte da democracia - esta que é boa, mas dá um trabalho danado.

Quem realmente acha que alguma coisa precisa mudar radicalmente (como eu acho), também pode se interessar pela reforma política, que pretende mudar as regras do jogo, inclusive do financiamento – que hoje acaba praticamente determinando quem entra e quem fica de fora. Diversas entidades da sociedade civil, inclusive, criaram um projeto de lei de iniciativa popular que é muito interessante. Pra conhecer melhor você pode visitar esse site aqui ou ver esse bate papo aqui embaixo.

Se preferir ficar vendo o CQC e achando tudo uma merda, fique à vontade.