O rapaz da televisão não está errado.

É corrupção, roubalheira, violência, esculhambação, monopólio, capitalismo, tapa na cara, dedo no olho, preconceito, racismo e indigitáveis tragédias diárias consumidas diariamente com mais uma garfada de miojo sabor galinha caipira?

Você descobre (sabe? percebe? sempre soube?) que o mundo não tá essas belezuras todas quando ouve a história da moça que esquartejou o marido, do juiz que recusou-se a casar dois homens, do rapaz que não aceitou viajar no avião pilotado por uma mulher.

É tudo verdade.

E cadê os direitos humanos? E os direitos de as mulheres dirigirem aviões, de os maridos não serem esquartejados, de os gays poderem casar-se, de as grávidas poderem parir gratuitamente em hospitais públicos (ou em casa) e de você não ter que receber pela trigésima vez aquele Itaú MarterCard que não solicitou?

E você vê o tanto de gente se mobilizando, andando, correndo e marchando pela vadiagem, contra a homofobia, pelos direitos sexuais e reprodutivos, pela discriminalização da maconha, contra o racismo, pela mobilidade urbana, pelo direito de parir onde quiser, do jeito que quiser.

Você vê a turma se juntando pra dizer que não quer violência (e o sangue comendo no centro), que quer mais saúde (e os hospitais lascados na emenda), que quer educação de qualidade (e os professores em greve porque as escolas estão aos pedaços).

E você acha que nada disso tem sentido, que nada disso vai dar em absolutamente nada nadica de nada de porra nenhuma mesmo.

E você solta aquele grito que está preso na garganta: fudeu!

Sente um pouquinho, respire fundo e veja que não é bem assim.

Em vos apresento, a paciência histórica.

A paciência histórica é aquela percepção de que as coisas podem estar mal hoje. Mas que já foram bem piores. E que piores estariam se ninguém tirasse a bunda da cadeira.

A gente reclama, com razão, da pouca representação da mulher na política. E esquece que até 1932 elas nem votavam. A gente acha (com razão) que ainda existem poucas vereadores, deputadas, governadoras. Quantas havia, então, em 1960? E há 20 anos? E há cinco anos?

Esperneamos (e estamos certos) com a qualidade da educação no Brasil. E não lembramos que até a década de 90 não existiam políticas de universalização. Ou seja: mesmo sendo um direito assegurado, não fazia parte do planejamento dos gestores garantir que toda criança pudesse ter acesso ao aprendizado. É verdade que ouvimos muito dizer que a escola pública costumava ser melhor há trinta, quarenta anos. Mas também é verdade que nem todo mundo podia se matricular e são comuns as histórias de que sem um bom ‘pistolão’ (ainda se usa ‘pistolão), você não aprendia nem o beabá.

A fila do SUS é absurda. Do Oiapoque ao Chuí faltam remédios, hospitais e muitos etecéteras. Sendo que até 88, quando foi criado o Sistema Único de Saúde, atendimento e prevenção eram privilégio de quem tinha carteira de trabalho assinada. Quem não tivesse seu carimbinho do INPS ficava à mercê da boa vontade das beneficências ou da ajuda nada altruísta do vereador amigo do vizinho da comadre.

Racismo é ruim hoje? E há 50 anos? Há dez? E se eu te disser que até 1997 nem crime era? Quem tem mais de 30 e hoje se constrange quando ouve piadas racistas é muito possível que já tenha dado risada das mesmas anedotas vinte anos atrás.

O machismo é um saco, a violência contra a mulher é absurda. Sim, é. Mas não faz muito tempo, maridos corneados matavam suas mulheres em “legítima defesa da honra” e nem presos eram. Minto. Nem errados sentiam-se. Simplesmente era assim. Há quarenta anos, nem divórcio era permitido no Brasil.

E se uma moçoila simplesmente declarasse seu amor ou manifestasse o desejo de transar com o namorado. O que aconteceria quinze, dez anos atrás?

Que efeito tinha a cena de um pai espancando um filho (ou mesmo a esposa) no meio da rua na década de 80? E hoje?

Apenas no ano passado pessoas do mesmo sexo conseguiram o direito de casar-se. E olha que foi na Justiça, no tapetão. Nem lei garantindo isso tem ainda.

Mesmo na moda desde a ameaça atômica (e atônita) da década de oitenta, nunca nos preocupamos tanto com o meio ambiente como hoje. Seja sincera: seus pais reciclavam? Havia disponibilidade de produtos orgânicos?

A galera vai pra a rua hoje protestar contra a construção de prédios no Cais José Estelita teria alguma chance quando o casario do bairro de São José deu lugar à Avenida Dantas Barreto? Difícil saber.

Engana-se, portanto, quem pensa que os avanços deram-se naturalmente, porque era para ser e tinha que ser. Nenhuma conquista veio sem luta, sem suor e sem lágrimas de muitos alguéns que em épocas diferentes sonhavam com uma vida mais justa e digna para todo mundo. Que sabiam: de braços cruzados não se abraça ninguém.

É olhando para trás que a gente percebe que, aos trancos e barrancos, vivemos numa sociedade mais consciente. Que anda devagar, mas que avança na conquista de direitos e que ainda tem muita gente procurando a cada dia construir um mundo melhor.

Eu só não sei se vai dar tempo.