sonhoO local era uma loja de brinquedos, num xópim quase bacana da cidade.

Enquanto pagava por um macaco de pelúcia, esticava as orelhas para ouvir um vendedor falando com a moça do caixa.

Ele, vibrante. Olhos brilhantes. Penso que saltitava.

Ela, blasé. Braços cruzados. Seus olhos apontavam para o rapaz, mas penso que olhavam algo por trás dele.

O moço, verborrágico:

“Dá pra comprar, Maria. Dá pra comprar. Terreninho massa. Todo plano.  Plano plano mesmo.Vinte por trinta e cinco. Grande, grande. O cara tá pedindo quinze mil. Vê, quinze mil! Dá pra financiar. É bem pertinho da pista. Tem plano de saúde no mesmo quarteirão. Água e luz também. Oxe oxe. Né bom não? Né bom não?”

A moça dava aqueles sorrizinhos só com a bochecha. Ele continuava empolgado, agora cutucando um amigo que passava por perto:

“É grande mesmo. Vinte por trinta e cinco. Todo plano, tu precisa ver. Oxe, por quinze mil. Vê só. Terreninho massa. Dá pra fazer umas duas casas. Uma o cabra mora, outra aluga. Tás ligado onde é? Ali, na beira da pista mesmo, perto do terminal. Vê só, perto do terminal da integração, rapaz.  Dali o cabra pega ônibus pra todo lado”.

A moça olha pro lado e o riso vai pro nível do deboche. Finalmente abre a boca:

“Mas é um povo que pensa feito pobre, né? Fica aí falando de ônibus… Em vez de pensar que vai ganhar dinheiro, que vai comprar um carro… Fica comemorando que tem ônibus na porta…”

O outro nem pensou duas vezes:

“Que nada, bestona. Claro que vou comprar carro. Mas já tou pensando nas visitas. Ou tu num vai pro meu aniversário?”