zenildaSão dias de estrada.

Essa semana, tenho andado pelo interior de Pernambuco. Faz parte da consultoria que eu presto para o programa Inspiração Internacional, pelo UNICEF.

Aproveitei a passagem por Pesqueira e, num intervalo, dei um pulo no território Xukuru, um dos povos indígenas mais organizados desse Nordeste. Só nas vinte e poucas aldeias cravadas na Serra do Ororubá, são cerca de 10 mil índios lutando pela posse da terra e pela manutenção de seus costumes à custa de muito sangue e suor.

Dessa vez fomos lá eu, o fotógrafo Mateus Sá e o motorista Flávio “Bono Vox”.

Tinham dito à gente que os índios estavam no processo de construir o Ponto de Cultura Memorial Xukuru. Um espaço em que irão realizar oficinas, cozinhar pratos típicos, ensaiar seus teatros, suas músicas, suas manifestações.

Então ninguém se surpreendeu quando fomos recebidos pelo sorriso de Zenilda Xukuru. Pá na mão, a viúva do cacique Xicão (morto em um atentado há 11 anos) aterrava o que será uma das salas da casa que se levanta onde antes era o curral em que um dos fazendeiros invasores criava suas vacas antes da desintrusão da terra. Na obra, o poder público entra com o material. A mão de obra é indígena. E voluntária.

20090714_p_cultura_xucuru_0002Já perto dos 60 anos, Zenilda não se sente mãe apenas de um punhado de rebentos (entre eles o atual cacique, Marquinhos – também ameaçado de morte). “Cada índio aqui é um filho meu e todo esforço que eu faço é para que esse povo se desenvolva junto, sempre em paz com a natureza”, diz a matriarca enquanto mostra onde serão os banheiros e as salas do prédio que com as próprias mãos ajuda a construir (pode clicar aí pra ampliar).

Ela não fala a toa. Uma das maiores lideranças do povo que vive num território de 27 mil hectares, dona Zenilda não se apropriou de nem um palmo de terra para uso próprio. “Não tenho feito roça, vou querer terra pra quê? Só pra dizer que sou dona? Isso não existe. A terra é pra o uso. Pra quem quiser plantar, criar seus cabritinhos suas galinhas. Isso aqui tem dono não. É de todos nós e vai servir às próximas gerações da mesma forma”.

Zenilda é incansável. Não para. Enquanto coordena o trabalho na obra, quer saber se está tudo certo com a escola, dá um abraço no neto e fala com orgulho do grupo de jovens da aldeia que começam a bulir com audiovisual. “São esses meninos que vão levar nossa cultura para a frente. Todo o saber tem que ser compartilhado, tem que ser registrado”.

De vez em quando ela pede pra olhar o projeto do Ponto de Cultura. Na tela do computador, a imagem mostra as paredes amarelinhas, bem acabadas, do jeitinho que o arquiteto Lula desenhou. Uma pequena arquibancada que dá para um palco onde as crianças vão apresentar suas peças. Uma sala que será ornamentada com fotos da história do povo.

“Eu fico assim olhando, pensando na inauguração. Dá uma vontade danada de trabalhar. Porque aí quando a obra estiver pronta, eu fico só na arquibancada, debaixo dessa árvore, só descansando e olhando o movimento”.

Ninguém acredita.

Nem ela.