Eu pensei que estava com um furúnculo (aqui a gente diz ‘furunco’ mesmo).

Errei.

Estava com dois.

Um estourou.

Resta outro.

Dói muito. Muito mesmo.

Aí fui chamado pra trocar uma idéia no Fórum Comunitário dos Coelhos.

Os Coelhos é um bairro da periferia recifense. Fica pertinho do centro da cidade. Pertinho dos melhores hospitais da cidade. Perto, bem perto do Fórum de Justiça, um prédio bonito que dá gosto.

Só que nos Coelhos não tem escola boa, não tem teatro, não tem cinema. E a maioria dos hospitais brilhantes e grandões que o circundam são privados.

De algumas salas nos prédios empresariais na Avenida Agamenon Magalhães dá pra ver os Coelhos. Muita gente que trabalha nesses prédios conhece São Paulo e Nova Iorque. Mas não conhece os Coelhos.

Têm medo de entrar no bairro.

Nos Coelhos tem um monte de gente querendo vencer na vida. Tem gente fazendo e ensinando artesanato. Tem gente ensinando a ler com livros que acha no lixo. Tem gente acreditando na organização da comunidade.

Uma dessas pessoas pegou uma câmera e entrevistou alguns jovens do bairro.

Muitos tinham deixado os estudos por pura falta de motivação.

Um foi perguntado: “Muita gente diz que a juventude não está nem aí para nada, que não quer fazer nada, não se esforça pra nada, não se organiza para nada. O que você acha disso?”

No que respondeu sonolento: “Eu acho que eles estão certos”.

Aqui entre nós: isso incomoda mais do que o furunco do meu sovaco.