O despertador de manhã sempre toca na hora errada. Aliás, toda hora é errada. Acordar é uma violência. Lençóis aconchegantes, travesseiros carinhosos. A perfeita posição horizontal precisa ser eliminada. Aquela moça do meu sonho precisa agora ir embora, desaparecer de minha cabeça. Os olhos remelentos abrem e o dedo do pé ajuda a ligar a televisão. Homens engravatados nos trazem más notícias e os gols da rodada. Pra completar, ainda é segunda-feira.
As pernas arrastam o corpo até o banheiro. O rosto não parece nada bem. Não há sorriso. O cabelo não aceita pente antes do chuveiro. Geladeira, água. Alguém disse que é bom comer de manhã. Mas cadê fome? Café forte com um pouco de mel.
Ana Maria Braga começa dar seu recado. Poeminha bonitinho escrito por leitora que mora lá na Casa de Chapéu. “Não desista dos seus sonhos, persiga seus objetivos”. Ahã, com certeza… E quem é que vai me fazer um suquinho de laranja mesmo?
O que ela tá dizendo mesmo é: “Meu filho, já passam das oito. Você não saiu de casa ainda?”
“É, minha filha… Saí não. Mas só falta vestir a camisa e…”
Rua, sol, calor, suor. Na minha baixa cama ainda batia um ventinho, sabe-se-lá de onde. Óculos escuros. Andar e dormir ao mesmo tempo não seria uma habilidade mal vinda.
Na calçada tem cocô de cachorro, como em Paris. Na pista tem buraco, carro, bicicleta, como na Índia. Tem motorista maleducado que dá o dedo e me manda pra aquele lugar. Vou procurando a melhor trilha para se andar na cidade. Uma senhora cheirosa passa com seu poodle. Arrisco um bom-dia murcho mas não tenho resposta. Quem mandou?
Antes que eu consiga chegar à parada, o ônibus passa. Vazio, claro, como todos aqueles ônibus que você perde. Mas antes que a manhã pudesse apresentar-se pior, passa um senhor de macacão laranja e vassoura em mãos.
Garizando pelo meio fio, canta uma canção de amor a plenos pulmões. Sorri, faz pose, microfonando o cabo do instrumento de higiene pública. De cabelos mal cortados, tem uma presença de calçada exemplar.
O dia não pode ser tão ruim assim.
*** Ivan Moraes Filho sabe que “tudo é relativo” é uma frase extremamente absolutista.
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