Mas eu mesmo não curto esse papo de “tirar as crianças das ruas”.
Aliás, já tou até meio de saco cheio disso.
O que não falta é gente (boa, muito boa), querendo inventar programa social pra “tirar as crianças das ruas”.
E, claro, não tão falando apenas das crianças em situação de rua das grandes cidades, que precisam realmente de cuidados especiais para que passem a ter um ambiente saudável dentro de casa.
Querem tirar a minha filha da rua, a sua, a do seu vizinho.
Esporte pra tirar as crianças das ruas, cultura pra tirar as crianças das ruas, arte pra tirar as crianças das ruas.
Sério, pra quê?
Não dá pra fazer isso tudo na rua?
E se a gente sai da rua, tira a criança da rua, evita a rua a todo custo, como vão ficar as ruas?
Quem vai pisar nelas?
Quem vai sentir a irregularidade das calçadas e reclamar da prefeitura?
Quem vai comprar chiclete na barraca da esquina?
Quem vai dar bom dia à comadre que vende tapioca ali na frente?
Quem vai brincar de amarelinha? Brincar de bola de gude? Jogar futebol com traves de sandália ‘japonesa’, como mainha já dizia?
Vamos tirar as crianças das ruas?
E colocá-las onde?
Na frente da televisão, aprendendo que um biguimeque tem doisamburguequeijomolhoespecialcebolaepicleseumpãocomgergelim?
Pulando em cima do sofá?
Aperreando na cozinha?
Brincando no MSN? Ah, isso sim é seguro.
Na boa. O que a gente tem mesmo é que botar a criançada na rua mesmo. E ir pra a rua a gente também.
A ocupação qualificada do espaço público melhora faz bem à saúde física e mental. A gente anda mais, dá mais ‘bom dia’, observa mais os alredores da gente. Vive, conhece, experiencia, sente, cheira, toca.
Sair da rua, deixar a rua apenas como território da marginalidade, é passar atestado de fracasso enquanto comunidade.
Ou não?
Samuel
26 de August de 2009 às 5:56 pm
Faltou o alface!