Aí acontece que, aos cinco anos de idade, a menina vai à dentista pela primeira vez. E adorou.
Estava empolgada, curtindo muito o protagonismo da hora do atendimento. Curtiu a cadeirinha que sobe e desce, a luz que acende na testa da moça e a baciazinha de cuspir. Não achou nada de mais no barulhinho do aparelho com cerdas mais duras que fez a limpeza. Não reclamou da aplicação do flúor e decidiu que ao tornar-se adulta seguiria esta linda profissão de quem tão bem cuida das mais alheias bocas.
A odontóloga, das boas, usou um bom tempo para explicar sobre cáries, açúcar, escovação e afins. Mostrou filminho, trocou ideia, deu pasta de dente de presente.
Um recado: “Jamais vá dormir sem escovar bem os dentes”, foi repetido e compreendido. Que senão os bichinhos comem, os dentes ficam pretos, caem, estragam, um desastre só. A criança faz cara de quem presta bem atenção. Balança a cabeça para cima e para baixo, achando graça e fazendo que “sim”.
Em casa, jantar de sanduíche com leite achocolatado. O pai aproveitou para usar o ensinamento recém-aprendido pela pequena sorridente.
“Agora já sabe, né?”
“Já sabe o quê?” testou a menina
“Escovar os dentes, né?”
“Pode ser depois?”
“Melhor ir agora. Lembra do que a dentista disse?”
Respirou fundo, olhou pros lados e caprichou no desdém:
“Nem sei pra que eu fui nessa dentista…”
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