interruptorNaquele dia a menina chegou em casa cansada, muito cansada depois de brincar a tarde inteira com o primo.

Não queria comer, não queria pintar, não queria jogar bola nem brincar de pega pega.

Só queria mesmo era alterar, aperrear, dar pitizinho e essas coisas que crianças e adultos fazem quando estão com muito sono ou com muita cachaça na cabeça.

Como a menina ainda não bebe, o diagnóstico era certo. E o tratamento, secular: banho e cama.

Mas ela não queria tomar banho, claro. Nem escovar os dentes, óbvio.

Assoviando, ouvi o o choro como se fosse música enquanto a colocava debaixo do chuveiro. Na cabeça era o mantra “oooommmm”.

“Você quer conversar com papai?, dizia quase cantando. “Primeiro precisa parar de chorar pra papai poder entender”.

Alguns segundos depois, os últimos soluços engolidos.

“Papai, eu tou chorando sabe por quê? Porque eu queria deixar minha bolsinha na varanda”.

“Mas a bolsinha não mora na varanda. Ela mora no armário e tem que dormir lá”.

“Então é porque eu não quero tomar banho nem dormir”.

Já enxuta, pego pela mão, caminhamos até a janela.

“Tá vendo lá fora? Tá claro ou escuro?”

“Tá escuro…”

“E quando tá escuro e hora de quê?”

“…De dormir…” e já ia engatando um novo choro, quando emendou:

“Mas tá escuro porque foi você quem apagou!!”

Sem saber que tinha o poder de apagar o dia, fiz a mágica mais esperada da noite.

Leite com chocolate, uma fraldinha bem limpinha e uma história bem lenta fizeram a criança docemente cair nos braços de Morfeu.