Antes de começar, digo que fique à vontade para, durante a leitura, inverter todas as referências de gênero de acordo com sua identidade, orientação ou cidadania sexual, ok? Me ajudem a, dessa vez, não ter que ficar colocando “a(o)” em todo canto.
Falemos, pois, do corno, esse incompreendido.
Tal qual a liberdade, a saudade e a democracia, já falou-se muito desse personagem de difícil definição.
Há quem diga que a cornice provém de um ato chifrístico em que a mulher (nem sempre) amada cai nos braços de outro marmanjo provocando automaticamente o fenômeno cornal.
Nada mais equivocado, querido bodegueiro, querida bodegueira.
É isso mesmo. Se você não passa mais na porta ou se anda estourando a bola de futebol ao cabecear, não invente de culpar ninguém. Esta é uma questão apenasmente sua.
Pois ser corno é um sentimento (?) que independe de qualquer atitude de terceiros. Trata-se de uma qualidade particular e individual cuja origem está no próprio portador gaiístico.
Se puder, relaxe. Não é o fato de sua companheira dar pra outro cara que faz com que frondosas galhas brotem em sua testa. Acredite: uma coisa não tem nada haver com a outra.
Jamais será corno aquele que reconhece sua companheira como pessoa completa e com direitos sobre seu corpo. Aquele que não mostra a aliança como se fosse uma certidão de propriedade. Que compreende a diferença (brutal) entre amor, compromisso e sexo.
O cidadão que se acha dono de sua (hein?) mulher, é automaticamente um corno em potencial. Aquele que vigia seus caminhos, monitora suas amizades e confere a roupa da moça antes que ela saia de casa dá passos largos em busca do tão sonhado chapéu de touro.
Contratou detetive pra ir atrás da moça? Pronto, é corno atestado e oficializado. Não interessa o resultado da pesquisa. Nada mais cornífero do que contratar um serviço profissional para fiscalizar as ações da periquita alheia (sim, lembre bem: ela não é sua).
Verdade é que o cabra pra ser corno não precisa nem estar envolvido num relacionamento. Sentiu-se no direito de achar ruim o comportamento sexual de alguém que acredita gostar, pronto. Passe a mão na cabeça pra você ver. Cuidado para não se ferir.
O corno legítimo, original de fábrica, costuma passar recibo. Fala mal da mulher, comete grosserias e coisas tais. Em casos mais graves (e criminosos) chega à violência física pela completa falta de capacidade de compreender que não tem absolutamente nenhum direito garantido sobre o coração ou o resto do corpo da pessoa amada ou desejada.
Em algum momento de sua vida, até o limpezista mais radical já sentiu aquele espinhosinho cabuloso nascendo no cucuruto. Numa fase em que ainda pode ser escondido pela cabeleira ou mesmo (em casos raros) cirurgicamente removido por diálogos e leituras sobre a natureza humana e as imposições culturais. Quando o chifre começa a ficar vistoso, fica difícil entocar ou serrar. Trata-se, infelizmentemente, de um dos materiais mais resistentes do planeta. Conhece um ex-corno? Pois é.
Num mundo (ainda) machista e patrimonialista como o nosso, vamos admitir: ser corno é muito mais comum do que não ser.
Mas não precisa ser assim.
Amei! Falou e disse! Tu é o cara ;)
De tão lógico, penso que todos os caras (e mulheres) já deveriam ter isso em mente!