Clarinha, com seis anos, começou a conversa.

Despertou quando viu, novamente, uma senhora que sempre pede esmolas num sinal perto de nossa casa.

“Tio Ivan? Porque ela não vai logo ao banco?”

“Porque ela não tem dinheiro, meu amor”.

“Mas o banco não tem? Só é ela ir lá com o cartão dela e pegar”.

“É, mas no banco só pode pegar dinheiro quem já foi um dia deixar o dinheiro lá. O banco só guarda o dinheiro das pessoas…”

“E Papai Noel, tio Ivan? Ele não pode ajudar? Não é verdade que ele não esquece ninguém, como diz aquela música?”

“Veja, minha linda… A verdade é que Papai Noel esquece sim… É muito difícil pra ele lembrar das pessoas mais pobres, mais humildes. Olhe que algumas vezes ele até aparece. Mas não do mesmo jeito que vem para você…”

“…”

“… É mais ou menos como o banco…”

Acho que foi nesse dia que eu rompi de vez com o ‘bom’ velhinho. Se nossa relação já estava abalada, foi nesse momento que eu risquei ele das minhas fotografias (como, descobri, fazia o pai de Samarone Lima com seus desafetos).

Entendo a festa e a alegria. Entendo o brancão de barbona brancona, gordão e de casacão servindo de garoto propaganda pra todo mundo. Entendo que nem todo mundo quer pensar na vida, nas desigualdades, na luta de classes…

Mas, aqui pra nós, e esse papo de que o cara dá presente pra as crianças “que merecem”?

Alguém aqui já viu uma criança de uma familia com grana ficar sem presente?

E a turma que realmente não tem como ganhar presente? Nunca merece? Suas traquinagens são mais puníveis que as dos engomadinhos?

Para quem está na parte de baixo da pirâmide, Papai Noel é um dos primeiros indícios de que o mundo não é assim um lugar justo.

E, apesar de meio ranzinza, cada vez faz mais sentido o “Monólogo de Natal” que Alberto Lima recitou tanto que enrouqueceu. Leia aqui na Bodega e tente decorar para o momento de cortar o peru.