Bom dia, redação! Mãos à obra, rapaziada.

Então vejamos, que matérias serão escritas? Que pautas irão para a gaveta? O que temos de mais quente e o que vai pro final de semana? Dá mesmo tempo de fazer essa especial? Que releases vão direto pro lixo e quais a gente manda pro recém-chegado estagiário para virarem notas naquela coluninha reservada “ao que sobrou”?

E aquela polêmica do deputado que está sendo processado por racismo? Será que cabe uma suíte? Ou é melhor ligar pra aquele senador falastrão e jogar uma isca pra ouvir ele meter o cacete na base do próprio partido?

O chefe mandou escrever sobre o novo xópim center. Faço sobre os novos empregos e divisas que o empreendimento vai gerar para o estado? Ou melhor abrir com o dano que vai causar ao meio ambiente se for realmente construído naquela área de mangue?

É bronca no campo? Quem é que pode ser uma boa fonte? O dono da fazenda, o rapaz que ocupou, o homem do governo ou aquela mulher da ONG que fica o tempo todo falando de reforma disso ou daquilo. As conversas vão ser por telefone, imeiu, MSN, Facebook? Ou será que dá pra descolar um carrinho pra ir no(s) local(is) falar olho no olho com a galera?

Putz, o cara não respondeu…. Tá de sacanagem com a gente? Faz dez minutos que mandei o SMS e nada. Será que dá pra escrever sem esse depoimento? E se eu pegar uma fala dele que tem no site, já dá conta do recado? Afinal de contas, o tema é o mesmo, só muda o ano.

Vai ter fotógrafo? Ou vamos preferir perguntar se as fontes fizeram algum registro em imagem que vão poder descolar pra ajudar a ilustrar? Vou preferir esse ou aquele ângulo? O do cara que jogou a pedra ou do que levou a pedrada na testa? Composição, conteúdo, luz ou foco? Entre os quatro, eu quero mais o quê?

Seu editor, as matérias estão todas prontas. O que vai em cima, embaixo, de lado ou de banda? Quer que abra manchetão, ocupando todas as colunas superiores da página? Ou não vale a pena? Foto abertona ou discreta? Vai rolar infográfico? Que tal uma arte com umas aspinhas dos depoimentos principais? A de quem vem primeiro, segundo, terceiro e quarto? Precisa esse povo todo falar? E se não tiver espaço, quem é que vai pro delete?

Que anúncio grande da gota… Só sobrou essa tripinha? Vai uma retranca de quarenta linhas ou duas de vinte? E o que é que eu faço com essa escola que ficou sem aula porque a chuva derrubou o telhado? Vira notinha ou mando pra a turma do site?

Vem cá, tou em dúvida num título. Não sei se boto “Estudantes pedem meia passagem”, “protesto tumultua o trânsito” ou “Caos no Centro”. O que você acha mais apropriado? Tecnicamente, é claro.

Pra quem vai a primeira página? É o escândalo em prefeituras do interior? É o livro recolhido por aquele governo por ordem daquele deputado evangélico que não quer ver ilustrações de pitocas e periquitas nos materiais sobre sexualidade para crianças e adolescentes? É a chacina no subúrbio? O crime passional naquela cobertura bacana? Ou domingo é dia de futebol?

Faça o que achar melhor, nobre colega. Só não me venha falar de imparcialidade no jornalismo, valeu?

* Artigo publicado originalmente no site do projeto Por Que a Gente é Assim