Não convém citar nomes, colar fotografias.
Se você acompanha o noticiário nacional, sabe de quem eu estou falando.
Um pai de familia. Um trabalhador.
Teve que interromper o trabalho mais cedo.
Num carro oficial, policiais militares haviam metido bala pra cima do carro onde estavam apenas sua esposa e seus dois filhos. Um de três anos, um de nove meses. Foram 16 tiros.
Os PMs não perguntaram quem eram. Os PMs tinham medo. De sangue quente e vidrados no bangue-bangue que se tornou a ação do estado, tremiam com a possibilidade de alguém dentro do carro revidar a saraivada.
Todos poderiam ter sido mortos. Algo de bom impediu que a esposa e o bebê levassem tiros. Esse mesmo algo de bom, infelizmente, não conseguiu evitar que o menino de três anos, quase quatro, levasse duas balas e morresse.
Como de praxe na nossa imprensa, o pai ganhou os microfones durante o dia inteiro.
Vou dizendo logo. Sou contra entrevistas com familiares de pessoas assassinadas quando falam no calor da perda. Os depoimentos normalmente (claro) deixam-se levar pela emoção e os ‘desabafos’ acabam, não raro, deixando toda a sociedade com gosto de sangue na boca. Em suma: não agregam.
Ontem foi diferente.
Apesar de a jornalistada insistir em chamar a entrevista coletiva improvisada na frente do hospital de “ato de desespero”, aquele pai não tinha nada de desesperado. Estava lúcido, duro. Uma pessoa desesperada não articula tão bem as palavras. Não tem a segurança que aquele homem demonstrou ter ao enfrentar o batalhão de repórteres e cinegrafistas buscando closes e procurando as lágrimas que sobriamente não vieram em público.
Por mais que sua voz estivesse rouca, embaçada por ter chorado – e com vontade de chorar, seu depoimento é forte e de qualidade impressionante. Um discurso que os tradicionais formadores de opinião, diante do faroeste imposto pela fragilidade violenta das nossas polícias, ainda não compreenderam.
Firme, o pai disse tudo. Que não existe a necessidade de a polícia perambular de armas em punho pelo meio da cidade. Que inconcebível a decisão de assassinar friamente todos os componentes de um carro, sejam quem forem. Que a função da polícia é proteger a população, não a de amedrontar.
Diante de sua dor, o pai não pediu revanche, não quer vingança. Não deseja a morte de ninguém.
Quer justiça. Como eu e você.
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