Por Leonardo Sakamoto, em seu blog

Acho ótimo que pessoas e empresas estejam engajadas para o Dia Mundial da Água. Sinceramente. Portanto, espero que essa onda não seja para uma grande lavagem de marcas. Até porque água é um bem escasso e não pode ficar sendo usado para retirar manchas que só vão ser removidas com ações reais que mudem a forma como se faz negócios e não apenas perfume o que está sujo. E não é apenas o uso racional do que se retira do meio ambiente, pois água não serve só para cozinhar, tomar banho ou fazer cerveja.

Pensar racionalmente a água passa por evitar a construção de grandes hidrelétricas que afogarão comunidades ribeirinhas ou indígenas em algum lugar da Amazônia a fim de se construir mais usinas de alumínio (aquele das latinhas…) em detrimento a formas mais limpas (e, hoje, mais caras) de produzir energia. Ou a contaminação de lençóis freáticos com agrotóxicos usados na agropecuária (sugiro ótima matéria de Angela Pinho, hoje na Folha de S. Paulo, sobre como as grandes do setor, como Syngenta, Bayer e Basf, foram flagradas com irregularidades em fiscalizações).

Muito tempo atrás, durante as brigas do amianto, um advogado que defendia o interesses dos trabalhadores trouxe um pedaço do produto para ser mostrado em uma audiência com os que defendiam as empresas perante o juiz. O amianto circulou na mesa, mas do lado corporativo, que defendia que o amianto era inofensivo, ninguém quis tocar no produto, acusado de causar danos à saúde dos trabalhadores… A Anvisa está fazendo uma reavaliação toxicológica de mais de 200 substâncias químicas. A presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), alega que vetos causarão aumento de custos. O padrão é o mesmo: se o problema está longe, ele não é um problema. Não sou eu que vou manusear os produtos químicos, não sou eu que vou ter minha casa inundada por uma hidrelétrica e nunca ser ressarcido, não sou eu que vou ser acusado de não cuidar da cadeia produtiva da água porque ninguém liga os pontos. Ninguém considera que quando demando um produto, mesmo que não haja água em sua fórmula, sou responsável pela forma como ele foi feito – incluindo o que ele fez com a água.

Banho curto, não lavar a calçada com a mangueira, usar sistemas de descarga mais inteligentes são importantes. Mas são apenas a ponta do iceberg. A capacidade do consumidor de dizer não para marcas que criam os mais diferentes impactos na água do planeta, impactos que, às vezes, não estão à mostra, é que pode fazer a diferença no final das contas.