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Dia desses me meti (mais uma vez) num acalorado debate com um grande camarada. O tema: liberdade de expressão. Meu amigo vê problemas em diversas propostas da sociedade civil para democratizar a comunicação no Brasil. Ele diz que tem medo do “discurso único” da esquerda e de possíveis limitações à “liberdade de expressão”.

Eu respeito muito esse cara, embora discordemos em quase tudo. Ele acredita que o governo não deve se meter em quase nada e que o mercado é que deve regular praticamente todas as relações econônicas, culturais e sociais.  Ainda bem que ele também torce pelo Sport.

Meu amigo, embora seja um cara muito sabido na área da engenharia, disse que não entendia quando eu dizia que nos dias de hoje não existe uma plena liberdade de expressão no Brasil. Nem quando eu insistia que controle social, regulamentação e investimentos em comunicação pública (não estatal)  poderiam, de fato, garantir esse direito a todo mundo.

Como – ainda bem – o papo enveredou para temas mais importantes (futebol, cerveja, etc), aproveito agora para tentar (mais uma vez?) redizer o que eu vivo dizendo, procurando ser o mais beabazístico possível.

1- Liberdade de expressão é uma liberdade de todas as pessoas. Sacou? Pessoas. Em tese, todas as pessoas (eu disse “pessoas”) têm o direito de se expressarem livremente. De falarem e serem ouvidas;

2- Na chamada “sociedade da informação” (leia: hoje em dia), o debate “que vale” é conduzido especialmente pelos meios de comunicação de massa – especialmente tevê, rádio, impressos (menos) e, cada vez mais, internet;

3- A maior parte desses meios são controlados por muito pouca gente. Isso porque pra apitar numa rádio é preciso ter muita grana, muito poder político ou os dois juntos;

4- Se muito pouca gente controla a maior parte dos discursos, muita muita gente acaba ficando invisível, calado ou, em alguns casos, equivocadamente representados.

A essa altura da listinha, você pode estar achando o papo muito teórico demais da conta. Então que tal alguns exemplos?

1- Quantas vezes você já viu um índio falando por cinco minutos em qualquer televisão de alcance nacional? Honestamente, você acha que essa turma tem garantida a liberdade de expressão?

2- Recentemente, o jornal O Globo recusou um anúncio (pago) assinado pelo grupo Afirme-se, que defende as cotas raciais. Tá certo, recusou não. Multiplicou por 10 o valor inicialmente acordado quando viu o conteúdo do anúncio. Mesmo que você seja contra as cotas (o que é opinião sua), você acha legal que essa galera seja impedida de divulgar o que pensa?

3- Você pode estar vendo a novela das oito (nove?) e achando legal o marketing social sobre a pessoa paraplégica e tal. Mas quantos programas em rede nacional você conhece em que pessoas com deficiência comandam o show? Um? Dois? Nenhum? Algum em libras? Algum com descrição auditiva?

Você certamente vai conhecer mais exemplos. Se isso aqui fosse uma palestra, eu teria acabado agora minha apresentação inicial. O auditório, iria bater três palminhas (talvez só por educação) e estaria iniciada a parte das intervenções do público. É hora de perguntar, argumentar, discordar, enfim.

Prometo que faço outro texto comentando os comentários – se houver algum.