Esse sorridente aí é o Nélson Motta. Homem no lugar certo e na hora certa, é tido com um brasileiro bem sucedido. É jornalista, escritor, empresário, compositor. É também maconheiro. Não, não, não é fofoca não. Quem disse foi o proprio gente fina, em dois de seus livros. Em Noites Tropicais explica até como foi que deu toco a um policial que o pegou ‘de cima’ num Rock in Rio desses da vida. Isso no tempo em que ser pego com um cigarro de maconha dava cadeia.

Em Vale Tudo, quando biografa Tim Maia, aproveita e entrega boa parte do high society paulista e carioca. Diz Motta, que conhece muita gente, que pó e fumo não são exatamente raros na noite grã-fina do Sul Maravilha. O escriba diz que Tim andava pra cima e para baixo com cópias autografadas de seus LPs para presentear, entre outros, os guardas que o pegavam em contravenção.

Se você não conhece ninguém que usa algum tipo de droga ilícita, pode parar por aqui. Não, não vale o povo da televisão. Tem que ser família ou amigo. Mas, por favor, pare mesmo. Só vá até o fim se você conhece pelo menos uma pessoa que faz uso de algum tipo de substância tóxica ilegal, mesmo que eventualmente.

Pode ser que você não aprecie esse hábito. Pode achar feio, de mal gosto, perigoso para a saúde. Pode, em casos de pessoas que sofrem de dependência, sentir até pena, dó. Mas eu tenho quase a certeza que você não acha que essa figura, sua amiga ou parente, deve ir para a cadeia só por causa disso.

Agora tente lembrar se alguém dessas pessoas já se meteu em encrenca com a lei por conta do uso freqüente ou esporádico de um baseado, uma carreira de pó ou de uma balinha de ácido. Ninguém? Alguém?

O que aconteceu ? Delegacia? Termo circunstancial de ocorrência? Cana dura? Dinheiro na mão do homem da lei? Cesta básica?

Pausa pra você pensar.

Agora eu sugiro que você pense um pouco sobre a turma que hoje ocupa os presídios por conta de crimes ligados às drogas, como o tráfico. Por alguns instantes (só para efeito de raciocínio), não vamos levar em conta os processos de violência que acompanham esse movimento.

No fundo, no fundo, o que foi que essas pessoas fizeram para estarem atrás das grades? Compraram e venderam um produto altamente valorizado e procurado. Um produto abundante, crescente e com um público cativo. Por vezes, exageradamente fiel e, não raro, de alto poder aquisitivo.

Em uma visita à Colônia Penal Feminina de Pernambuco, no ano passado, fiquei impressionado com a quantidade de mulheres presas “no doze”, como é chamado o tráfico. Num universo de 400 detentas (ou reeducandas), elas eram a maioria das sentenciadas.

Algumas vendiam para pagar o próprio consumo. Outras eram influenciadas pelos maridos (muitas vezes presos), outras sustentavam os filhos com o dinheiro que não parecia nada sujo quando era transformado em pão, feijão e leite.

Muitas, depois de condenadas, não sabiam como iriam continuar provendo para as famílias. Trancadas e marcadas por toda a vida, essas mulheres com certeza estavam (e estão) no lugar errado.

Tenho a impressão de que todo mundo leu esse texto até o final.