Um frequentador da Bodega chamado Marlos Ápyus esteve aqui hoje. Pediu um chope e leu o texto em que eu falo da briga Record X Globo/Folha. No artigo (e fora dele) eu defendo a regulamentação dos meios de comunicação pela sociedade.
Marlos foi lá nos comentários e tascou a seguinte pergunta:
Como você reagiria se existisse um órgão que regulamentasse o conteúdo que você publica em seu site?
Como é um papo que eu gosto muito, resolvi respostar aqui, pra todo mundo poder pitacar.
Acredito que a tarefa de informar seja um serviço público, que como os outros deve ser tratado com transparência e democracia.
Esta Bodega, como outros tantos blogs, está hospedada num servidor privado e quem escreve aqui é uma pessoa, que sou eu. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento tecnológico e R$ 30 por ano pode ter um blog como este.
Mas nem por isso eu tenho (ou deveria ter) a liberdade de caluniar, mentir, esculhambar quem quer que seja ou deliberadamente destilar meu preconceito contra um grupo específico.
Sei que para isso há leis (que não funcionam), mas (por isso) defendo uma legislação que possa fazer com que procedimentos e punições possam ser aplicadas — a posteriori — a veículos, como esta Bodega, se por acaso abusarem do seu direito/dever de informar/opinar de maneira justa.
Se qualquer pessoa se sentir ofendida por esse bodegueiro e achar que merece um direito de resposta, eu me comprometo a postar a réplica na íntegra na mesma hora em que receber o texto. Mas isso porque eu quero. Não há nenhuma instância que me obrigue a fazer isso com a agilidade necessária para que o mal seja desfeito.
O máximo que se poderia fazer era me denunciar por calúnia e difamação. Esperar o trâmite judicial (que pode demorar anos) e talvez conseguir um reparo qualquer. Nesse tempo eu posso continuar descendo o malho. Posso mentir, posso inventar informação.
Se eu for denunciado ao Sindicato dos Jornalistas, eles não podem tirar meu registro. Podem, no máximo, me dessindicalizar. Como eu não sou mais sindicalizado, não podem fazer nada. Nadica de nada.
No caso de meios (públicos ou privados) que utilizam canais públicos de distribuição (é o caso do rádio e da tv), defendo uma regulamentação que permita além do controle que eu admito nesse blog. Como são concessionárias de canais no espectro eletromagnético (que é limitado), essas instituições devem ser regulamentadas de modo que garantam o direito à comunicação a todos os brasileiros.
Muita gente pode ter blogs como este. Infelizmente, porém, nem todo mundo pode ser detentor de uma concessão de TV (embora – teoricamente – tenha o mesmo direito).
Nesses casos, portanto, além da regulamentação necessária para aplacar questões de inveracidade de informação, calúnias e quetais, é preciso uma norma que permita que todos os segmentos da população possam ter a oportunidade de dizer o que pensam, desejam e precisam.
Ou mesmo – como informou a Record – para se “defender” do que acredita ser uma campanha orquestrada contra ela.
Ao que tudo indica, teremos esse ano, “pela primeira vez nesse país” uma Conferência Nacional de Comunicação. O processo já começa a decolar em alguns estados e a discussão deve ser boa. Será que isso chega na televisão?
j.
19 de March de 2009 às 10:52 am
regulamentação já. se um dentista furar um dente errado, ele se arromba na justiça. se um arquiteto planejar uma casa e ela entronchar, lascou-se. se etc etc etc… pq a imprensa não deve se arrombar tb quando publica alguma merda?
a imprensa é medíocre principalmente porque não tem responsabilidade com o fato.
Marlos Ápyus
19 de March de 2009 às 11:07 am
Pô, bacana! Não imaginava que minha “provocação” receberia tanta atenção. Sempre fui contra a regulamentação pelo trauma vivido por nós brasileiros durante os 21 (25?) anos de ditadura. Mas sua resposta me fez pensar e rever alguns conceitos (Na verdade, nunca fui muito a fundo no tema. Mas já me peguei questionando, por exemplo, o tal “sigilo de fonte”. Em posse dele, eu posso, também por exemplo, combinar uma safadezazinha com algum presidente do Supremo Tribunal Federal, publicar que o mesmo foi grampeado, e com isso derrubar uma operação que prenderia um dos maiores banqueiros do país, sem que para isso precise mostrar qualquer prova do grampo, tudo para preservar minha fonte, que talvez nem exista. Mas, como disse, é só um exemplo “hipotético”). Parece bem razoável que esta regulamentação se dê após a publicação das tais palavras/imagens. As passagens chaves da sua tese, para mim, foram o “a posteriori” e “agilidade necessária para que o mal seja desfeito”. O medo que fica (do gato escaldado) é sobre quem regulamentaria isso. Pois se cai em mãos erradas, ou simplesmente em mãos políticas, pode ser mais uma boa idéia que seja usada para fins nada nobres, como perseguição ideológica. E, apesar de odiar muitas coisas desta terra, adoro esta possibilidade que temos de você defender a regulamentação, e eu atacá-la. Mas que venham outros “pitaqueiros”. Grande abraço.
Siri
19 de March de 2009 às 6:27 pm
Pois é, companheiro, regulamentação não é censura, não é opressão, não é controle (no sentido ditatorial da palavra). É chamamento à responsabilidade de quem se diz investido do dever de informar.