copa2014_blatterNa minha vida, tive uma única oportunidade de acompanhar de perto uma Copa do Mundo de futebol.

O ano era 1998. O país, a França.

Sim, o Brasil levou uma lapada dos donos da casa na final.

Mas aqueles dias ficaram para sempre. A farra nos albergues, os perrengues para acompanhar a Seleção, a festa nas ruas. E olha que não vi a canarinha em campo nenhuma vez. A carteira não deixou. A única partida em que consegui entrar no estádio foi entre Nigéria e Paraguai, em Tolouse.

A maioria dos jogos a gente assistir na rua mesmo. Em telões espalhados em diversas cidades, entre torcedores de outros países que vibravam e divertiam-se juntos.

Copa do Mundo é realmente uma coisa fantástica, especial mesmo.

estadio-cidade-da-copa-2014-recifeE por isso eu fico contente, muito contente, que o Brasil possa ser palco de mais uma. Especialmente sabendo que São Lourenço da Mata, aqui pertinho do Recife, vai ser uma das sedes.

Agora, se eu disser que não estou preocupado é mentira minha.

Todos os estádios-sede vão precisar de reformas. E olha que não é pouca coisa o que a Fifa pede.

São Lourenço, que nem tem estádio, vai precisar ganhar um.

Um estádio de futebol que atenda às expectativas de uma Copa não é coisa barata. Dizem que o de São Lourenço está para custar R$ 500 milhões.

E isso é ótimo. Desde que seja pago pelas Nikes, Ambevs e Motorolas da vida. O dinheiro é deles e eles fazem o que quiserem.

Pra sair do cofre do povo, não é bom de jeito nenhum. Nem por investimento direto, nem por incentivo fiscal.

Explico: é uma questão de prioridade.

Vivemos num país em que a grande maioria das crianças não têm acesso à prática esportiva inclusiva de qualidade. As redes de ensino não têm professores suficientes nem infraestrutura adequada. Poucas escolas e comunidades têm acesso a quadras poliesportivas. Cobertas, então, é luxo raro.

Educadores sofrem também com falta de material esportivo (em qualquer modalidade) e de um currículo acordado que possa fazer com que a garotada aprenda o esporte e o que mais a prática pode trazer de bom.

Sendo assim, defendo que cada centavo de recurso público para o esporte seja investido, antes de mais nada, para que esse déficit seja superado. É o mínimo para quem diz que deseja fomentar a prática esportiva em todo o seu potencial.

Em construída a Arena em São Lourenço, quem vai tomar ‘tomar conta’ dela após a Copa?

Os três principais clubes de futebol do Recife já têm seus estádios, além de inúmeros pepinos com a justiça do Trabalho e outras ‘justiças’. Se quisessem, dificilmente teriam recursos para adquirir um estádio tão caro. Muito menos para administrá-lo.

Rendas dos jogos e possíveis ganhos adicionais com estacionamento e comércio de alimentos dificilmente atrairiam o capital privado a assumir o estádio – especialmente se Rubronegros,  tricolores e alvirrubros ‘insistirem’ em jogar em casa.

Recordar é viver - Recentemente, o Brasil sediou os Jogos Panamericanos de 2007. Foram gastos cerca de R$ 3,5 bilhões (cujas explicações vivem batendo-e-voltando no Tribunal de Contas da União). Boa parte do custo do Pan foi em infraestrutura. Foram construídos, entre outros equipamentos, um dos mais modernos parques aquáticos do mundo, o Maria Lenk, que vive às moscas. O “Engenhão”, que hoje é a ‘casa’ do Botafogo, também é cria do Pan. Pago com meu dinheiro e seu, o estádio hoje pertence à privada agremiação da estrela solitária.

Se você acha isso tudo certo, fique à vontade para bater palmas.