Eu estava fazendo hora. Fim de tarde em Brasília, esperava o relógio dizer que já era o momento de ir ao aeroporto.
Tomava um chope com uns colegas. De frente para a rua, como sempre.
Mas não o vi chegar.
“Amigo, posso te fazer uma pergunta?”
Devia ter seus trinta e poucos, feito eu.
Era alto, muito alto. Magro, muito magro. O boné escondia uma cabeleira rala, galega. Os olhos azuis saltavam daquele rosto fino. Envergava uma roupa que parecia ter sido doada por um homem tão alto quanto ele. Embora bem mais gordo. Carregava uma sacola plástica com alguma outra vestimenta e outros nãoseiquelás.
“Não vou te pedir dinheiro. Mas tou com fome. Você pode me pagar um prato de comida? Se você quiser eu sento na calçada”.
Que calçada que nada. Senta aqui.
Sentou.
Não sei, porque não perguntei, se André morava na rua. Pelo aspecto, podia parecer que sim. Pelo jeito articulado, podia parecer que não. Mas isso, cá para nós, não quer dizer nada.
André estava com fome. Mas não era só de comida. O que queria mesmo, imagino, era um par de ouvidos.
Que encontrou.
Em cerca de meia hora, falou. Sem pressa, sem se alterar. Falou uma fala compassada. Pouco volume, muito afeto, como me conhecesse desde sempre.
De amizade, solidariedade, de comportamento, de educação. De sua história muito pouco. Que era de São Paulo, que estava em Brasília há três anos.
“Gosto muito de fazer amigos, até porque não os tenho. Aqui o povo não é legal, não. Uma vez pedi comida e o cara disse que só tinha cartão de crédito. Ora, cartão não compra comida? Falei pra ele ser mais humilde. Aliás, digo isso sempre. Na hora não dá nada, mas acho que ele acaba pensando nisso antes de dormir. Tá um cara feito eu dizendo pra ele ser mais humilde, né? Isso deve bater na cuca do cara”.
De religião, de ciência.
“Já frequentei muito a igreja, mas estou distante, embora continue acreditando. Devorei a Bíblia várias vezes e a gente precisa acreditar naquilo ali. Na ciência também. Ou você acha que o Big Bang não está no Genesis? Claro que Darwin estava certo, mas o que ele disse já tava de alguma forma nas escrituras. É só saber interpretar”
De saúde, dos desafios que enfrenta a humanidade
“Tá ligado azeite? Os judeus têm índices baixíssimos de doença cardíaca. O negócio é azeite extra virgem, que é do costume deles lá. Conheço pelo cheiro. Isso é bom pra tudo, até pra inflamação de ouvido, furunco… Agora tenho estudado muito mesmo é sobre meio ambiente, aquecimento global, sustentabilidade. A coisa é muito séria e a sociedade só está preocupada em comprar o carro do ano”.
Chegou seu prato. Frango frito, arroz, salada. A batata que ele pediu pra vir no lugar do feijão. Pra beber, um copo d’água com gelo.
“Porra, veio pouca salada… No cardápio a verdura estava tão bonita… É ruim o serviço aqui, né?”
Comeu com tranquilidade, continuando o papo entre uma garfada e outra. Mesmo dizendo que não se interessava por televisão, de vez em quando grudava o olho na luz do LCD no alto da parede. Comentou ainda mídia, celebridades em geral, Gisele Bundchen em particular.
Já eram 19h quando levantou-se.
“Obrigado pelo bom almoço. Olha, tava uma delícia mesmo. O serviço pode ser fraco, mas a comida é muito boa. Uma boa viagem pra você”.
Apertou minha mão e saiu tão de repente quanto chegou. As fomes já um pouco saciadas.
As minhas também.
Carlinha
7 de July de 2009 às 12:25 am
Tô passada!!!!… O que André quer, Ivanzinho??? Ele está procurando o que em BSB e viajando?
Amigo… quero ser tu quando eu crescer…