Há sei lá quantos anos, temos uma tradição em nossa família. Toda segunda-feira de carnaval, convidamos amigos, amigas e amigos dos amigos e das amigas para comer uma caldeirada e tomar uns gorós antes da concentração do bloco Amantes de Glória.
Nesse dia, acordo cedo e vou esquentar a barriga no fogão pra que a galera possa forrar o estombre antes de cair na folia.
Modéstia às favas, a turma diz que o rango é bom. Como nunca mais eu botei receita na Bodega, acho que é uma boa oportunidade. Vamos lá. Não leve as quantidades muito a sério, o que vale é a idéia.
O que leva:
Frutos do mar – os que você quiser e gostar e puder comprar. Marisco e sururu normalmente um pouco mais, porque dá volume. Um quilo ou dois. Depois polvo, lula, aratu, siri, caranguejo, lagosta, camarão (sem casca), enfim. Umas postinhas de um peixinho bom de cozinhar, como pescada, cação ou dourado também valem a pena. Como minha caldeirada é grande, normalmente eu compro uns 7 ou 8 quilos de frutos do mar. Você talvez não precise de tanta ignorância.
Verduras e temperos – Todos. Cinco pimentões coloridos, umas oito ou nove cebolas, duas cabeças de alho, uns 12 tomates (descascados), uns limões, coentro, salsa, cebolinho, sal, pimenta do reino, folhas de louro, noz moscada…
Outros: vinho branco ou cachaça, um litro de um bom uísque, óleo, azeite de dendê, 1 litro de leite de coco, dois punhados de amendoim.
Pra começar:
Antes de mais nada, bote uma música legal pra tocar (que tal Bob Marley?), uma dose de uísque pra você beber e uma panela com água pra ferver com uma cebola (descascada e cortada ao meio) dentro. Não precisa botar sal.
Aí você aproveita pra picar todas as verduras, bem picadinhas. Pode também usar aqueles multiprocessadores modernos. Mas aí já é maloqueiragem. Peça ajuda e ofereça uma dose de scotch pra quem se oferecer.
Também lave bem direitinho as paradas do mar. Tempere só com uns limões e veja se não tem nada fedendo. Vá por mim. Às vezes tem.
Quando a água ferver, bote e tire as postas de peixe bem rapidinho. Essa leve cozidinha é só pra te ajudar a tirar a espinha. Aí você aproveita o embalo e já coloca o polvo pra cozinhar nessa mesma água. O bicho demora uns 40 minutos pra ficar no grau.
Já tá tudo picadinho? É aí que a mágica se inicia:
No caldeirão, refogue a cebola e o alho no óleo com uma besteirinha de dendê. Coloque também um pouco de sal e as folhas de louro. Quando começar a cebola começa a ficar transparente, jogue os pimentões. Tá quente? Fumaçando? Coloque um pouco de vinho ou cachaça pra fazer aquele “tchhhhhhhhhhhhh” legal. Aí você coloca os tomates, pimenta, noz moscada e mete uma tampa pra servir-se de outra dose de uísque.
A essa altura do campeonato, o polvo já deve estar cozinhado. Troque a música (pode ser um ska ou um pop bem animado) e pique também o octópode. Pedaços de 1cm são o ideal. Ainda não jogue essa água fora.
Já dá pra ir colocando, devagar, os frutos do mar. Começando pelo que demora mais. Sururu, marisco, aratu, siri… Vai colocando devagar pra não esfriar a panela e bulindo sempre com a colher pra misturar os temperos.
O camarão (que cozinha rápido), o peixe e o polvo (que já tão cozinhados) são os últimos bichos a entrar.
Deixa mais um tempinho e enquanto isso tome uma lapada de cana e bata o leite de coco com dois punhados de amendoim sem casca e sem sal.
Aí você coloca um frevo (de rua, por favor!!) na radiola. Na panela: salsa, cebolinho e coentro. Depois, sempre mexendo, coloca o leite de coco (que foi batido com amendoim) e mais um pouquinho de nada de dendê.
Se achar que ficou muito seco, vá acrescentando aquela água fervendo que sobrou do peixe e do polvo, com uma concha.
Abaixe o fogo e vai servindo o caldinho pra ver se falta sal, se falta pimenta, aquela coisa toda.
Quando todo mundo disser que está bom, possivelmente é verdade. Comam com arroz ou farinha. Um limãozinho e uma pimentinha da boa também fazem a diferença.
Uma cerveja pra lavar e você está pronto pra cair na folia.
carol moraes
19 de February de 2010 às 11:41 am
uma djilícia…deu vontade enorme.
Aristóteles Cardona Júnior
19 de February de 2010 às 11:47 am
Ivan, muito bom. Mas nao sei porque voce “pega no pé” do frevo de bloco. É muito bom também. Tá certo que pode não animar como o de rua, mas é inegavel sua qualidade e que tambem é parte importante de nossa cultura. O problema só é que ficam muito nas mesmas músicas (vide Madeira do Rosarinho).
Thiago
19 de February de 2010 às 11:49 am
Como é que tu passa uma receita e nem usa a palavra “reserve”? Tipo… “refogue o alho e doure a cebola, e reserve…”.
Receita que é receita tem que ter o “reserve”.
Ivan Moraes Filho
19 de February de 2010 às 11:55 am
Thiago, então vamos botar assim: “reserve um pouquinho pra comer na quarta-feira” kkk
Aristóteles, eu até gosto de frevo de bloco. Capiba é um gênio. Sua qualidade e importância são inegáveis – especialmente ao redor de uma mesa de bar.
Mas o que eu gosto mesmo é pegar no pé do bichinho. Seilá, acho mais divertido. Espero seu perdão:)
Rosinha
19 de February de 2010 às 12:18 pm
Bote fé… deve ser 10!
Gostei das crônicas, não conhecia nada… que coisa feia…
E nada contra o frevo de bloco :)
andre gustavo
19 de February de 2010 às 12:47 pm
Pra cair na folia não dá não,Ivan.Depois de três lapadas de uísque, duas ceuvejas pra lavar,uma caldeirada boa da gota, vai bater um sono da febe…..
Ivis
22 de February de 2010 às 11:14 am
E tava boa mesmo. :)
Samuca
22 de February de 2010 às 4:32 pm
Vâmo fazer o seguinte, ano que vem, tu faz isso lá na concentração da Mulher na Vara…depois nois vai pros Amantes. hehehehe
maura aparecida
10 de January de 2012 às 5:22 pm
Nunca me diverti tanto lendo uma receita.adorei.bom carnaval,vou fazer aqui em Volta Redonda-RJ,só que em doses menores.
julieet
12 de January de 2012 às 11:59 am
parece que fica bom…
Leila Perci
12 de January de 2012 às 1:06 pm
Menino, que onda, hoje comi caldeirada. Valeu a dica! :)