Por Alfredo de Oliveira Neto*, de Vila Isabel

A feira é de cores e de vida: nada haver com prateleira insossa de supermercado.

Por que parcas pessoas riem, conversam entre estranhos, exercem o divino fascínio da brincadeira, do “sarro”, da “tiração de onda”, do “tá de sacanagem”? Por que evitam de fazerem exatamente isso dentro de um super, ou médio, ou mini mercado em plena aurora de manhã de sábado? E por que há um quê de criança que se aflora nos barrigudos de cabeças brancas em cada barraca, pechincha por pechincha na mesma aurora de manhã do mesmo sábado?

Em qual supermercado poderia eu brincar de abaixar o preço do mamão? O sujeito que mais ganha em cima do lucro daquele mamão está bem longe dali, no mínimo em bela soneca numa king size qualquer, sonhando um montante de coisas caras em sentido, suspeito, bem vazio do que seja uma coisa cara. Talvez esteja em pesadelos: ilhas Fiji, Dom Perignon na suíte master do seu 78 pés, quando, de assombro, ao apertar olhos para melhor entender o porquê, passivamente assiste por detrás do vidraçal a uma tempestade. Pingos graúdos de ações trabalhistas. No canto direito um raio onde lê, dobrando o pescoço: subprime. Como assim? Pois é, pesadelos não são nada fáceis.

O importante é a feira: a carne, os peixes – tão fresquinhos que provocam arrepios nos vegetarianos dos mais – daqueles que só comem frutas. Acho eu, no cume da minha ignorância, que aulas de artes plásticas sobre naturezas mortas, principalmente na especialidade de verduras e flores – sim! Há flores! E das mais amostradas. – deveria, ou deve, ou deverá também incluir como espaço de ensino a feira. Em dias de sol, lá está Ele planejando a iluminação do espetáculo, naquele naipe: nem frio, nem quente – naquela intensidade de cor que só o melhor iluminista do sistema sabe fazer. 

Um prato cheio para crianças: vermelho é vermelho, roxo é roxo. Geralmente há uma ali pelo caminho, outra acolá usando pequeninos brincos no colo da mãe, aprendendo novas cores – sabia lá que existia o “branco das velhinhas do queijo”! E existe. Ficam lá, parecem irmãs, vestem-se e comportam-se como idôneas beatas católicas da época do latim, porém, hoje, observando-as mais um pouco, descobri um quê de protestantismo mórmon na forma como elas alisam as cédulas.

“Limão a 1 real, limão a 1 real” – aborda-lhe o insubmisso sujeito, vendendo nos corredores, não possui barraca. Subversivo típico de feira. Os pregões contaminam seus ouvidos e não por acaso o velho Caymmi atribuía aos pregadores da sua época potenciais estimulantes de insights fantásticos para suas composições.

Pois ando freqüentando com muita água na boca a feira dos sábados matinais na Rua dos Artistas em Vila Isabel – É mais caro que o Mundial, ou Guanabara? – É nada. Há penas um dos parcos espaços desse nosso planetinha onde coisas caras mudam totalmente de valor.

*Alfredo é médico, revolucionário e boa praça