Sabia que tem gente que acha o Dia Internacional de Combate à Homofobia (17/5) desnecessário? Tem quem defenda que ela não existe, que se está querendo demais. Que todo mundo se ama, que o preconceito foi inventado. Que, inclusive, garante haver uma ditadura gay, uma conspiração internacional colorida ultrapoderosa para dominar o mundo.
Pois é, você aí que teme ser agredido na rua, ser xingado, levar pedrada, você vai dominar o mundo. Sabia não?
Você que passou a adolescência se culpando, se detestando, se escondendo, com medo de desagradar a família, você tá prestes a mandar. Sabia não?
Você que apanhou dos pais, foi jurado de morte, teve que sair para vida escorraçado, que nunca mais soube de ninguém do antigo lar, você é quase dono do planeta.
Você que teme amar em público, que precisa disfarçar olhares, que qualquer “deslize” já concentra a desaprovação da vizinhança, você é dominador nato.
Você que teve “amigos” que não te aceitaram, que tem “amigos” que preferem não comentar, desviar do assunto, você se queixa de barriga cheia. Olha que injustiça!
Você que sabe como a polícia age contigo, como ela te trata, sempre naquela tensão de que vão encrespar a qualquer momento, você vai estar no topo do império.
Você que já foi convidado a sair, para não dizer expulso, de um lugar público, por aquele administrador cercado de seguranças carrancudos, por não te acharem adequado, você não perde por esperar. Aguarde e verá.
Você que se cansou de ouvir que pertence a um grupo de molestadores incontroláveis, dos quais as pessoas precisam muito se proteger, caso contrário, a cantada e a investida da mão-boba são certas, você dentro em pouco vai dar ordens em todos.
Você que ainda hoje se oculta, assustado contigo, com o que vão pensar, se contendo, se contendo, quase estourando. Quem sabe daqui a pouquinho?
Você que sabe até que no próprio meio as palavras usadas para ofender, para maltratar, são as pejorativas que têm a ver com o meio. De tão adestrado que o mundo foi para te odiar, te recriminar, você se contagiou, se entranhou, e é com a mesma lâmina que você fere, de imediato, o do lado.
Você, segundo muitos, reclama sem precisar. Pelo excesso de frescura que possui. Tanto que também exigem um Dia do Orgulho Hétero. De tão rejeitados, tão sofridos, tão perseguidos e sem direitos que se tornaram.
Dá uma pena de quem tá apavorado por perder privilégios exclusivos, num dá não?
*é jornalista
Ivan, sei que você não limitaria os comentários a este post, mas, porque eles não estão acontecendo? Eu sou o primeiro? Será que dá pra gente entender/compreender/aferir que ainda silenciamos (e muito!) quando o assunto é homofobia ou coisas de gay a partir da recepção a este texto? Fui, lembro agora, chamado de petulante por uma leitora tua. E é bem engraçado (para não dizer bem triste) que ainda são os gays, as lésbicas, as/os trans, os que se ocupam, na grande maioria das vezes, com estes “assuntos”.
É por essas e outras que não acredito um milímetro, uma grama, um centavo nalgumas pessoas que, por estes dias, tem se insurgido contra a dominação dos maiores que eles. A questão é toda essa: as pessoas não querem perder o direito de olhar o melhor lugar de Recife, as pessoas vão para o Parnamirim (Parnamirim?) protestar (oi?) por falta de espaço. Me perdoem, mas isso é de um descaramento incrível, insuportável.