Por Samarone Lima, em seu Estuário
Leio comovido o texto do senador José Sarney na Folha de São Paulo, publicado dia 19 de junho. Se intitula “Ainda uma vez o livro”, assunto que me interessa de há tempos: o amor aos livros, e sua crença de que as tecnologias jamais irão torná-lo obsoleto.
Ah, como é lindo ter um senador da República citando Dom Quixote…
“Por milhares de livros que se possam acumular essas máquinas (fala de e-book e kindle), elas jamais acumularão os tantos livros que existem num livro. Quantos livros há no “Dom Quixote”, o cavaleiro da triste figura? São milhares, e cada frase é um livro”.
“Sempre precisaremos desse companheiro”, escreve o senador, sempre precisaremos do livro para nos levar, como dizia o poeta espanhol Manuel Machado, “da prosa ao sonho”.
Mas há um detalhe no texto que me intriga. No primeiro parágrafo, José Sarney diz o seguinte:
“Este espaço jamais pode ser usado para assuntos pessoais. Aqui, não tenho o Senado para atrapalhar-me, e sim o gosto de escrever. E nada melhor do que escrever sobre livro”.
Ou estou ficando louco, ou o senador tem um grave distúrbio de personalidade. É a terceira vez que assume aquela Casa. Se não está lendo e escrevendo, é porque o Senado deve dar muitas alegrias – ao bolso, aos familiares, ao estilo oligárquico de tratar as coisas da política no Brasil. Que eu saiba, ele não se candidatou à força, muito pelo contrário.
A última descoberta, que joga o nome do senador na nossa lama política, é a existência de ”atos secretos”, no Senado, desde 1995. O gestor dessa impressionante engenhoca burocrátic0-financeira (nomeações, aumentos de salários, hora-extra etc) era Agaciel Maia, que foi diretor de recursos humanos durante 14 anos. O homem foi indicado para o cargo por Sarney, esse amante dos livros e de Dom Quixote, em 1995. Agaciel só deixou o cargo depois que a Justiça descobriu que o camarada tinha uma casa avaliada em R$ 5 milhões.
Com R$ 5 milhões, Dom Sarney, muitas cidades nos grotões deste País teriam lindas bibliotecas, e formaríamos uma geração de novos leitores. Algum deles, com sorte, poderiam chegar a ler Dom Quixote.
Até agora, a comissão de sindicância apurou 623 atos secretos. Em qualquer país razoavelmente bem estruturado juridicamente, com um mínimo de mobilização cívica, todos os envolvidos já teriam sido demitidos, cassados, e os bens seriam confiscados. Num país um pouquinho melhor, seriam presos, e o STF não daria habeas-corpus automático, eles teriam tempo de sobra para ler e escrever suas memórias de larápios. Num país menos mesquinho, o presidente do Senado não zombaria da opinião pública como faz agora mister Sarney.
Nos atos secretos, aparece uma penca de nomeações envolvendo a família Sarney, aquela que se julga dona do Maranhão. Não vou citar os nomes, para a postagem de hoje não ficar muito extensa. São muitos, e gostam de ótimos salários. Como nos bons folhetins, temos a figura do mordomo. Ele trabalha para a senhora Roseana Sarney, filha do senador, e recebe R$ 12 mil por mês, o salário de uma penca de professores de literatura.
Sei que o senador jamais subirá ao púlpito para renunciar. Seria esperar generosidade e coragem, de um homem que tranformou o Senado a extensão da cozinha e do banheiro de sua casa. Se ele diz que o Senado atrapalha sua vida de leitor e escritor, recorro ao argumento literário, o único que me resta:
Por amor aos livros, deixe o Senado, José Sarney!
Ps. no final do texto, ele deixa o email, à espera, creio, de interlocutores literários. Compartilho com meus leitores:
jose-sarney@uol.com.br
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