Por Luciana Pinto, especialmente para esta Bodega

Para Ivanzinho Moraes – em resposta a Obediências – porque viver é sim, muito mais divertido

A despeito da mediocridade que pode ser o dia a dia de um ser humano desde que ele nasce, seja onde for… até o dia que ele morre, eu realmente só posso dizer uma coisa: sinto muito.

Senti o orgasmo dos meus pais, onde tudo começou, quando o espermatozóide líder foi lá e – feito! Conseguiu fecundar o óvulo.

A partir daí, foi sentir por sentir… Ou pelo menos, antes de tudo, deveria ser assim. Por um tempo parecia fácil, parecia até que ia continuar sendo – simplesmente – assim….

A larga trajetória com os sentimentos se deu quando eu peguei emprestados os sentimentos de Dona Sulamita, minha genitora. Tudo por causa de um tal cordão umbilical que dá trabalho até hoje!

Comecei sentindo a frustração quando eu tirei a sua cintura do lugar e não adiantava mais tentar ajustar a calça jeans básica…

Também peguei emprestada a emoção dela quando o médico da ultrasson disse – é uma menina. E fui sentindo.

Senti o trauma que é nascer. Tamanha era a preguiça, que passei do prazo, fiquei lá quase mais um mês. Sair do que Flávio Gikovate chama de Homeostase? Aquele estado de paz plena que a gente sente quando está inteiro, completo, em paz e com todas as necessidades atendidas na barriga da mãe? Não, isso decididamente não estava nos meus planos. Pra ser sincera, nem havia sido avisada que este dia ia chegar….E de repente: alguém nos puxa pela cabeça, dá uns tapas nas nossas costas, nos obriga a chorar, exatamente pra saber que estamos bem. Contraditório, né…

Mas fui sentindo e sentindo muito!

E quem pensava que já tinha sentido tudo naqueles árduos e prazerosos nove meses em que me arruma pra pensar que estava “pronta”..

Sinto muito, mas ali era que começava.

Comecei no módulo 1 – kit básico de sentimentos: fome, sede, dores físicas, cansaço, sono, calor, frio…. coisas que são comodamente saciadas pelos adultos a nossa volta…

Mas também senti gosto de ter estas coisas saciadas, aprendi a lutar por elas e comecei a chorar alto, para que esta saciedade viesse cada vez mais cedo e com menos esforço. Ops! Esta parte também tava fora da bula. Nem sempre era tão de graça assim… Mas aprendi também a sentir um gosto melhor, quando o esforço era grande!

Depois, a escola. E senti que o mundo à minha volta é um pouco maior, tinha coleguinhas “iguais” e “diferentes” que gostam e que desgostam….e de quem gostamos ou desgostamos. Sinto muito…

O tempo vai passando e a complexidade vai aumentando… Sentia alguns dos mesmos sentimentos da mãe, só que eles agora eram só meus. Sim: raiva – medo – ciúmes – saudade – alegria – tristeza – esperança… olha só, quantos!

Isso se dava muito rápido, com muita freqüência e quando se misturava então, era um pandemônio (se bobear acontece até hoje).

Era um turbilhão, ou um só –muito evidente – a cada acontecimento do dia a dia…a cada nota baixa, a cada ponto no jogo, a cada primeiro beijo, a cada gole de cerveja, a cada trago de cigarro, ou a cada repúdio a sua fumaça, a cada ônibus perdido, a cada carona ganha… Parece redundante, mas, só resta, sentir muito.
Falaria aqui de fases, como as da lua, em que se é maior ou menor, como se aqui na terra pudesse ser do mesmo jeito.

Ficaria horas caracterizando a primeira infância, a pré-adolescência, a juventude de sonhos, a vida adulta de responsabilidades, a maturidade das rugas, a velhice das limitações…

Em algumas nem cheguei ainda! Ainda estou no que pode ser, com sorte, um pouco menos da metade da vida – Mas já é tempo suficiente para perceber que todas elas têm algo em comum: sinto muito.
Poderia ser redundante, repetitivo, e pouco criativo se achasse que todos nós somos robores, e vivemos todas estas fases e cada acontecimento de cada uma delas de forma igual.

Se assim o fosse, esta crônica não estaria sendo escrita. mas é que – agora sim – lamentavelmente – tem gente que não sente muito, aliás tem gente que não sente nem pouco, ou escolhe pensar que não sente. Acha que sentir dói, ficou no trauma do parto. Será?

Mas até o não sentir é uma arte. E olhe, garanto-lhes que bem difícil de por em prática. O não sentir não é pior, não é menos, porque contraditoriamente, tem sempre uma grande dor por trás. É pra não doer, pra esticar a pouca felicidade que se acredita merecer de fato!E que é permitida sentir.

Querer sentir muito é permitido sempre. Começar de novo e do zero, é iniciar pelo módulo das sensações. É tocar o quente e o frio, o doce e o salgado, a dor e o prazer físicos, o suor e o frescor, o vento batendo no rosto, o toque do outro, o cheiro, a água escorrendo no corpo.

É romper uma placenta que não está mais na barriga da mãe, mas num invólucro em que muitas vezes nós mesmos nos colocamos, pra pensar que preservamos, agora na alma, a mencionada Homeostase de Gikovate!

Mas no fundo, é uma verdadeira fisioterapia na alma. Movimentos simples, que exigem coração aberto, mas que cada significado é entendido na sua plenitude, que o papel de cada um fica evidente para uma grande corrida, uma grande convivência, antes de tudo, a única eterna e determinante para todas as demais. Aquela que se dá consigo mesmo!