Nascer, aprender a falar, engatinhar, saber andar, mamar, arrotar. Ir para os braços da mãe, beijar o rosto, obedecer. Ir à escola, desenhar, brincar com massinha, ser sociável, obedecer. Sentar na linha, entrar na fila, ter uma mochila do Mickey, pedir licença, levantar a mão, dormir cedo, obedecer. Aprender a escrever, colocar o pingo no “i” e no “j”, saber que o seis tem barriguinha e o nove tem cabecinha. Que o sol é uma estrela. Que a tia está sempre certa e que verdura faz bem. Chiclete faz mal, mas pode. Refrigerante também. Tirar nota boa e jogar bola só depois de terminar a tarefinha. Obedecer.

Ter uma namorada. Trair. Beber rum com coca até vomitar. Ir para uma festa e contar quantas meninas beijou. Comprar um disco da moda e uma camisa da marca certa. Preferir as loiras ou as morenas. Fazer graça do amigo afeminado. Rir da cara do que não entende de futebol. Achar estranho o que usa roupas diferentes e passar no vestibular. Obedecer.

Conseguir um bom emprego. Ganhar dinheiro. Entrar no financiamento para tirar um carro e pagar em 36 fixas. Parar no sinal vermelho. Aprender a gostar de uísque. Ir ao enterro dos conhecidos. Mandar um telegrama para os noivos. Cartões no natal. Conhecer o padre. Obedecer.

Fumar ou reclamar de quem fuma. Ser contra algumas coisas. Ser a favor de outras. Gostar de chocolate, não gostar de mal hálito, rir das piadas e ter pelo menos duas (sujas) para contar. Perguntar “Tudo bem?” e responder “Tudo”. Procurar entender as mulheres. Obedecer.

Merecer uma promoção. Namorar e ligar todos os dias para dizer que chegou em casa. Noivar. Casar. Ter filhos, criá-los, ensinar as coisas da vida. Obedecer.

Pagar as contas em dia. Comprar um apartamento na planta, com intercaladas. Declarar imposto de renda e pedir restituição. Dar duas palmadas e um abraço. Botar de castigo. Mandar pentear o cabelo e levar para o zoológico. Ser avô para poder presentear os netos com chicletes e refrigerantes que fazem mal. Não esquecer de tomar os remédios para pressão. Contar histórias boas dos tempos em que as ruas eram menos perigosas. Achar que não dá mais para viver neste mundo. Não viver mais nesse mundo. Obedecer.

Viver tem que ser mais interessante.

Pêésse: escrito originalmente em junho de 2002. Recentemente resgatado.