Por Deco Nascimento, publicado originalmente no JCOnline

Na década de setenta, o conceito de marginalidade ajudou a compreender o sofrimento social. Este conceito é sustentado a partir de uma representação cultural da existência de um centro e uma periferia. Nessa época, o centro era marcado pela idéia de boa sociedade e de integração social: os salvos. Tendo claro as delimitações do centro, nasce a periferia e sua função simbólica do viver a margem, o não-lugar, da insignificância e do não poder. Nessa lógica, centro e periferia vão constituir as categorias básicas para compreensão do sofrimento social.

A marginalidade tem um componente sócio-cultural, onde a construção da realidade vai sendo edificada a partir dos centros de poder. Essa construção permeia nossa sociedade de tal maneira que perceber e se colocar contrário a essas forças se transfoma num ato de subversão. Para deixar mais claro o que falo vou citar alguns exemplos do nosso dia-a-dia. Em um grupo, onde o homem é a medida de todas as coisas, a mulher ocupará as periferias numa sociedade machista e patriarcal. Um grupo puramente heterossexual colocará na periferia todos os homossexuais. Uma sociedade centrada na beleza e juventude coloca na periferia as pessoas mais velhas.

Hoje, o conceito de marginalidade para expressar o sofrimento social foi completamente abandonado, a configuração de nossa sociedade tomou outro rumo. Posso estar enganado, mas tenho a impressão que essa violência em que vivemos e este medo que sentimos é, em parte, o grito daqueles que viveram sempre à margem. As periferias foram se enchendo, os grupos que viviam em zonas mais pobres deixados de lado. Os “donos” do poder têm o terrível hábito de subestimar as pessoas.

Em algum momento toda esse sofrimento teria que emergir. Estamos pagando por anos de omissão e o resultado disso tudo é o medo que sentimos uns dos outros. Não se pode andar nas ruas de nossa cidade em alguns horários, não se pode estacionar o carro em lugar algum sem sermos extorquidos por “flanelinhas”; parar em sinal de trânsito é aterrorizador. E ver pelo retrovisor, do carro, dois homens em uma moto? Tenho um amigo motoqueiro que certa vez me deu uma carona, dois homens em uma moto, imagine! As pessoas tinham medo da gente, tiravam o carro de perto, dava para sentir o pavor dentro dos automóveis. Transformaram-me em marginal por estar sentado no bagageiro de uma moto.

Esse é um momento de transição. A violência e o caos urbano são o grito inconsciente por responsabilidade social com as pessoas que sempre estiveram nas margens de nossa sociedade. A represão policial é uma medida paliativa, mas se não houver políticas públicas de respeito e melhora nas condições de vida desses grupos, infelizmente, não haverá nenhuma mudança. Porque a violência irá se multiplicar e não consigo imaginar uma situação pior que essa. Como dizia Carlos Drummond: E agora José?