Algumas centenas de pessoas foram às ruas no Recife, sexta passada, para marchar em favor das rádios comunitárias de Pernambuco – em especial as que foram recentemente fechadas numa operação da Polícia Federal junto com a Anatel. Mas eu não vou falar sobre isso agora. Tou esperando chegarem umas fotos que o pessoal do Centro de Comunicação e Juventude estavam tirando.

Mas vou falar de um papo que eu tive com um senhor que apareceu no finalzinho, enquanto um militante espinafrava a elite que controla o país – inclusive os meios de comunicação.

Carlos andava com dificuldade, apoiado numa bengala. Resultado de um acidente vascular cerebral (AVC) que teve há pouco. Antigamente o povo chamava de derrame. Não sei, pode ser que ainda se chame assim.

Baixinho, de boné, não fazia parte de nenhuma entidade, não era comunista nem nada. Mas já chegou junto de mim dando o seu recado.

“Eu sirvo a essa elite nojenta aí que esse homem está falando”.

E me contou sua história.

E me mostrou a declaração médica que precisa para obter seu passe livre nos ônibus. A data era de janeiro e até agora não havia recebido o documento que é de seu direito. Perdeu as contas de quantas vezes procurou as instituições públicas para resolverem seu problema.

A recém-deficiência também deverá complicar sua profissão. Porteiro há anos, não sabe como será a volta ao trabalho depois que acabar a licença médica.

“Sempre fui descontado na fonte. Nem sonegar imposto nunca pude. Agora o país me nega meus direitos. Tenho a impressão de que o Estado faz de tudo para nos jogar na marginalidade. Parece que não querem cidadãos, mas bandidos. A pessoa se esforça para fazer o certo, mas o errado sempre prevalece”, falou com uma tristeza que o proíbe de esboçar sorriso.

“Meus filhos estão dizendo que eu estou revoltado. Eu acho que tou mesmo. Meu filho veio me dizer que tirou o título de eleitor. Honestamente, não sei pra quê. Tá vendo aquele homem ali? E aquele ali? O que puxa carroça, o que dorme na calçada. O que o país tem dado a eles?”

Como que para tirar sua lasquinha, Carlos tem arranjado confusão nos ônibus que entra. Como não tem dinheiro para pagar, senta nos lugares reservados a idosos e pessoas com deficiência. Recusa-se a mostrar o passe livre (que não tem) a motoristas e cobradores. Quando chega sua parada, resmunga e desce pela frente.

“Eles vão fazer o que? Me prender?”

Tomara que não.