Por André Raboni, do blog Acerto de Contas
Nunca gostei muito de falar em “arquétipos de gerações”, pois sempre acabamos em pasteurizações que homogeneizam idéias e multiplicidades. Mas, certas figuras se tornam ícones geracionais, querendo ou não, seja pela mídia ou não. Hoje, 4 de abril, é uma data simbólica neste aspecto.
Por um lado, um nascimento; por outro, uma morte.
Há 50 anos nascia no Brasil, Cazuza. Há 40 anos morria nos EUA, Martin Luther King.
O que essas figuras representam para suas gerações? O que representariam para a geração de hoje?
Luther King foi ícone do ativismo político contra a discriminação racial e em prol dos direitos civis. Professava discursos inflamados contra os “brancos” e sua política segregadora. Sua ação fundamental foi a pregação de uma luta civil não-violenta, inspirado em Gandhi.
Já Cazuza foi ícone de uma geração derrotada pela AIDS. A “liberdade sexual” foi bandeira de uma geração anterior à de Cazuza. Os corpos se libertaram de um certo padrão de moralidade – “Brasil, mostra a tua cara”.
O sexo livre era como um gesto político. O desejo, um desejo de ter-se livre.
O que essas gerações têm em comum, e quais os seu efeitos na geração de hoje?
A resposta não é tão simples, mas é clara. A geração de hoje se politizou. A intenção é invadir a praia da política institucionalizada.
As lutas contra o racismo e contra a repressão sexual tornaram-se bandeiras políticas. As micro-políticas professadas pelo historiador e filósofo francês, Michel Foucault , nunca foram tão efetivas. As bandeiras tornaram-se movimentos sociais, e, por sua vez, políticos.
Já não se faz apenas política partidária. Surgem movimentos sociais que agregam pessoas e idéias. O “Movimento Negro” e o “Movimento Gay” emergem contra a discriminação em lutas pelos direitos civis.
Ser “negro” ou “gay” (ou os dois) já não é mais apenas uma questão de “cor” ou de “opção sexual”. Assumir-se enquanto tal, é um ato político.
A questão fundamental, ao meu ver, é que a juventude desde a década de 1960 para cá, está cada dia mais politizada. Isso é bom, apesar de também ter um lado perverso.
Estou falando de uma certa “cooptação” dos movimentos espontâneos por uma forma política viciada. É triste quando se vê a juventude atual lançando mão de velhas práticas políticas, antes condenadas pelas gerações que lançaram as bases da micro-política.
Se agregar jovens em torno de uma bandeira pode ser positivo nas conquistas por direitos civis, esses mesmos jovens precisam ter muito cuidado (pela sua “natural” ingenuidade) para não caírem em armadilhas…
Por isso eu digo: é preciso estar atento. É preciso romper barreiras, e não apenas se deixar levar pela sedução. Fazer política é um exercício positivo, mas é preciso ter cuidado.
Escreva um comentário