Era manhã de domingo e a televisão começava a dizer as coisas.

A Globo Nordeste fazia um programa especial sobre a dengue. Mais que necessário, diga-se de passagem. Se a população não se ligar e reduzir os focos do mosquito, não tem governo que resolva o problema dessa doença sem vacina e sem remédio milagroso.

Mas o que me chamou a atenção não foram nem as dicas, nem as denúncias. Afinal de contas, não tinha muita novidade mesmo.

Do alto de seu apartamento no décimo-nono andar de um apartamento na beira-mar do confortável bairro de Boa Viagem, uma distinta senhora alertava os seus pares para o perigo:

“A gente pensa que esse problema é somente da periferia e dos arrabaldes. Mas é preciso que as pessoas compreendam que a dengue também existe na cidade. Quem mora na cidade também tem que fazer a sua parte”.

Moça, foi assim mesmo que ela falou. Pode ser que eu não tenha sido completamente fiel às vírgulas e pontos, mas o conteúdo foi esse aí. E foi aí que a pulguinha que habita meu cangote deu uma dentada na minha orelha.

Como assim, cara pálida?

Repleta de boas intenções, mas com o preconceito nosso de cada dia, a dama da entrevista dizia o que muita gente pensa. As periferias, os subúrbios, os bairros menos confortáveis e com menos acesso aos serviços públicos são uma coisa diferente da cidade. Cidade é onde moram os cheirosos, que andam de carro e fecham o vidro para não ter contato com os que são “do outro lado”.

Esses e essas vivem em um lugar à parte. Na favela, na ocupação, embaixo da ponte. Mas não na cidade. Se não moram na cidade, presumo que não sejam cidadãos e cidadãs. Se não são cidadãos e cidadãs, como garantir-lhes os direitos imagináveis pelo estado de cidadania? E para que?