Desabafo por Pierre Lucena, publicado originalmente no seu Acerto de Contas

Grande parte de minha vida tenho estado na Universidade Federal de Pernambuco. Entrei em 1990, e desde o começo tive uma vida intensa lá dentro.

Já estou na UFPE há mais de 18 anos. Fiz minha graduação em administração, e meu mestrado em economia, também na UFPE. Só me ausentei durante os 4 anos de doutorado, mas já ligado à UFPE como professor. Fui presidente do DCE e também do DA do meu curso. Convivi em diversas fases, algumas boas, outras ruins.

Mas uma coisa vem me incomodando muito nos últimos anos: o completo abandono da graduação na UFPE. Isso vem acontecendo de uma forma generalizada.

Grande parte dos professores querem se dedicar apenas às pós-graduações. A estrutura da Universidade também privilegia as mesmas, esquecendo por completo da grande maioria dos alunos, que estão na graduação.

Sempre gostei de dar aula na graduação. Acho que é uma fase especial da vida dos jovens, que os professores deveriam se dedicar com afinco. Mas reconheço que sou minoria.

Em março deste ano, após pedido de alguns professores do meu departamento, resolvi aceitar assumir a coordenação do curso de administração, que é um dos maiores da Universidade.

Pensei que lá poderia fazer algo de útil para melhorar o curso. Principalmente porque a UFPE entrou no REUNI do MEC, o que força um maior esforço para atender aos milhares de alunos adicionais que estudarão na Universidade.

Logo de cara encontrei uma situação constrangedora. Alguns professores substitutos que não apareciam, ou mesmo que mandavam outros para substituí-lo. Era o substituto do substituto.

Em conjunto com os alunos comecei a publicar a frequência dos professores, já que a falta é um problema crônico. Rapidamente diminuiu a ausência.

Mas tudo isso sendo feito com muito esforço individual, sem a menor infra-estrutura.

O que é uma coordenação de curso hoje no meu centro (CCSA)?

Simplesmente não existe a coordenação, apenas o coordenador. Parece piada, mas um curso com 1.300 alunos não possui um funcionário sequer para atendê-los. Nenhum!

Sem estrutura o trabalho atual de coordenador é completamente burocrático, apenas assinando e encaminhando papéis que poderiam ser encaminhados por um técnico-administrativo.

Imagine a imensa demanda burocrática que um curso como esse possui. Com centenas de alunos solicitando dispensas de disciplinas, além da melhoria e acompanhamento do curso.

Resolvi atender todos os alunos durante o período de modificação de matrícula, já que alguém precisa se disponibilizar a isso. Foram mais de 800 atendimentos em 3 semanas, sem que ninguém ajudasse.

Virei praticamente um vereador de interior, oferecendo vagas gratuitas para os alunos com problemas.

Como se pode fazer educação deste jeito? É absolutamente impossível qualquer melhoria numa condição como essa.

Vocês podem perguntar como isso foi acontecer. Eu me pergunto isso todos os dias. Em determinado momento, a Diretoria do Centro (em outra gestão) resolveu acabar com as secretarias, e colocar todos os atendimentos em uma escolaridade, e os coordenadores passaram a se virar sozinhos. O impressionante é que ninguém reclamou. Todos baixaram a cabeça.

Há 10 dias atrás fui conversar diretamente com o Diretor do Centro, Sergio Alves, explicando da impossibilidade de fazer qualquer coisa significativa na graduação sem estrutura. Sugeri que voltasse à estrutura antiga, acabando com a escolaridade, e as coordenações assumindo o papel da mesma. Era preciso realocar os funcionários.

O diretor me disse que não teria condições, por falta de funcionários. Na minha idéia, precisaríamos de dois funcionários para os cursos de dois expedientes (Administração, economia e contábeis), e um para os restantes, Serviço Social (só funciona no período diurno), e Secretariado (noturno).

São 6 funcionários na escolaridade. Além disso, poderia diminuir seu próprio gabinete, que hoje conta diretamente com 7 funcionários, além de 3 que serão incorporados no concurso já realizado.

Esperava o mínimo de sensibilidade em relação à graduação. A única coisa que escutei foi um pedido para esperar outra pessoa assumir.

Hoje todos os departamentos e pós-graduações possuem sua própria estrutura de atendimento.

Vale perguntar como um departamento com 30 ou 40 professores têm 3 ou 4 funcionários para resolver os problemas, e um curso com 1.300 alunos não tem nenhum para atender os alunos ou mesmo acompanhar o funcionamento do curso.

Hoje os cursos funcionam mais ou menos assim. O professor recebe uma caderneta, sem nenhum acompanhamento. Se ele está dando aulas ou não, não se sabe ou controla.

Os alunos se sentem completamente abandonados, já que não há ninguém que os acompanhe ou mesmo os atenda.

É dessa forma que a graduação se encontra na UFPE, pelo menos no meu centro.

É honesto de minha parte reconhecer o esforço que o meu departamento vem fazendo para apoiar a graduação, e também a Pró-reitoria de Assuntos Acadêmicos. A atual pró-reitora, Ana Cabral, e seu diretor, Alberto Mesquita, desde o começo foram muito corretos, e têm se esforçado para que esta situação mude.

Para melhorar a graduação sou capaz de enfrentar dificuldades e até colegas de Universidade, mas não dá para lutar contra a estrutura. É perder tempo.

Na próxima terça marquei uma reunião com todos os alunos do curso, para explicar a situação. Estou esperando um gesto de boa vontade até lá.

Acredito que não tenho mais o que fazer na coordenação, se quem deveria me dar apoio deseja que as coisas continuem exatamente no mesmo marasmo e no mesmo abandono.

Não aceitarei ficar de cabeça baixa, fazendo papel subalterno.

Se querem um subgestor, que arrumem um subprofessor.