Por Ricardo Noblat, em seu blog
“Se vencermos mandaremos no país durante 20 anos”, confidenciou Fernando Collor a amigos pouco antes de se eleger presidente da República em 1989.
O plano dependia do êxito do governo, naturalmente
Collor queria fazer seu sucessor e substituir o presidencialismo pelo parlamentarismo. Mais adiante se elegeria deputado e voltaria como primeiro-ministro.
Delírio? Hoje é fácil dizer que sim. Collor caiu no final de 1992, acusado de corrupção. E o parlamentarismo foi derrotado no plebiscito do ano seguinte – como havia sido no plebiscito de janeiro de 1963.
No primeiro, o presidente da República João Goulart jogou pesado para banir o parlamentarismo adotado dois anos antes por exigência dos militares como condição para que ele assumisse a vaga de Jânio Quadros, que renunciara ao mandato.
No segundo plebiscito, o presidente Itamar Franco, sucessor de Collor, assistiu tudo de camarote.
Sérgio Motta, o todo-poderoso ministro das Comunicações do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, comentou um dia que o PSDB e seus aliados estavam destinados a mandar no país durante 20 anos, no mínimo.
Curiosa essa fixação por 20 anos. Nas contas dele, Fernando Henrique governaria por oito anos. Depois elegeria seu sucessor que governaria por mais oito anos. Quem sabe não haveria tempo para realizar um novo plebiscito que resultasse dessa vez na vitória do parlamentarismo?
O PSDB é parlamentarista. Mas aí a economia mundial foi sacudida por várias crises. Então veio Lula.
A rigor, o sonho de Collor não foi pelo ralo com a queda dele. Nem o de Motta baixou à sepultura depois que ele morreu.
Se tivesse sobrevivido, é possível que Collor quebrasse a resistência do PSDB em governar com ele. PSDB e Collor tinham tudo a ver.
Assim como têm o PSDB e o PT. Ambos vieram da esquerda para o centro.
Os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso deram continuidade à política econômica de Collor. Em grande parte, o sucesso do governo Lula deriva da falta de cerimônia com que ele se apropriou de políticas inauguradas por seus antecessores.
Examine os nomes que circulam como aspirantes à vaga de Lula. No que diferem tanto José Serra, Aécio Neves, Ciro Gomes e Dilma Rousseff?
A eventual eleição de qualquer um deles mudará o quê?
Estilos à parte, e a maior ou menor experiência administrativa de cada um, no essencial eles compartilham as mesmas idéias e têm os mesmos compromissos.
Enxergam, de um lado, a maioria dos brasileiros pobres que seguirá amparada pelos programas sociais (quem ousaria revogá-los?). E, do outro, as elites que nunca lucraram tanto como no governo Lula (quem ousaria contrariá-las? Talvez Serra, um pouquinho).
Do primeiro dia do governo Collor ao último do segundo governo Lula terão se passado 21 anos de um total de cinco mandatos.
Restará cumprido, não exatamente ao gosto deles, o vaticínio de Collor e de Motta.
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