Há uns dez dias, minha avó sentiu uma dorzinha estranha no corpo.
Sabe como é avó. Velhinha, já anda com dificuldade, cheia de dorzinhas espalhadinhas.
Quando vem uma dorzinha nova, a turma já fica preocupada.
Foi no hospital, fez um monte de exame.
Uma veia importante da já-não-tão-moça tava quase fechada de gordura. Uns 80%, disseram os laudos.
Indicação: um procedimento relativamente simples, colocar um stent na veia e garantir mais uns bons anos de vida à boa velhinha.
Pra a gente que não entende, um stent é uma molinha que entra na veia e abre ela mais um pouquinho pra o sangue poder passar melhor.
Vovó é uma das poucas clientes que sobraram à Golden Cross.
Os médicos avisaram à seguradora, que pediu mais exames, mais laudos, mais pareceres. Não queriam autorizar o trabalho assim tão fácil.
À reclamação da familia, informaram: “É que é um procedimento caro…”.
Como também foram caros são os mais de vinte anos de dindim pagos ao plano de saúde.
Ou de doença?
Não quero pensar nisso, mas acabo imaginando que tem alguém fazendo conta. Sendo o procedimento realmente caro, é difícil que voinha “pague” a despesa com as mensalidades que lhe restam em vida. Será que tinha alguém de calculadora na mão se perguntando se “valia a pena”?
Passou um dia, passaram dois. Passou-se uma semana.
Ficar no hospital era uma estratégia que usamos. Como estava gastando com a internação, talvez o plano se sensibilizasse e mandasse a bichinha logo para a faca.
Segunda-feira era eu quem estava no quarto fazendo-lhe companhia, quando entrou uma médica.
“Olha, Dona Vovó, acho que ainda vão demorar uns 10 dias para dar a autorização… Talvez seja melhor a senhora voltar para casa…”
Meu pai arretou-se. Foi no escritório da seguradora, soltou os bichos, bateu as tamancas, meteu o dedo na cara da galera.
Ontem à noite, vovó ganhou o stent. Os médicos disseram que a parada não foi fácil. Já eram 95% de entupimento na veia da véia.
O anestesista foi um bom amigo meu. Me ligou hoje e me deu as internas.
“Como está ela? Bicho, o negócio não tava nada bom, visse? Se demorasse mais…”
Não tem como não lembrar do filme “Sicko”, de Michael Moore. Você pode nem gostar do cineasta malucão, mas o filme é interessante. Fala dos Estados Unidos, onde – ainda – não existe saúde pública. Mas aplica-se bem ao Brasil, onde a saúde pública é tão “boa” que todo mundo acredita que precisa ter um plano privado.
Olha o trailler aqui embaixo:
pêésse: Se você trabalha ou já trabalhou nas internas de um plano de saúde e quer abrir o jogo comigo, eu garanto seu anonimato. Vamos fazer um artigo, um livro, um filme. Vamos jogar essa meleca toda no ventilador.
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