Danilo Souza é o que veste essa camisa preta, à direita de quem lê. É um boa praça, estudante brasileiro na Espanha.

Entre uma aula e outra, dá uns rolés pela Europa, vê algumas coisas, bebe outras, come algumas.

E sente um outro tanto.

Dia desses tava na França e passou por uma parada que nunca tinha passado antes. Avisou por MSN e relatou por email:

“Relato nessa Bodega um fato forte que me aconteceu numa das minhas andanças. O sentimento doeu em mim, mas doi muito mais naqueles que o sofrem todos os dias.

Encontrei em Paris meu primo meio francês meio brazuca Nivaldo. Estávamos visitando sua irmã, Marianne.

Ele mora em Dubai e, como tinha acabado de chegar, estava cheio de sacolas. Peguei algumas sacolas e começamos a andar pela cidade-luz em direção à casa da minha prima.

Eu estava lá já havia um dia e não tinha notado nenhum sinal de preconceito ou qualquer coisa do tipo. De repente, comecei a notar olhares esbugalhados. Os transeuntes que vinham em sentido contrário meio assustados comigo. Será que dois caras com cabelo enrolado mereciam serem olhados com tanto receio?

Que danado eram aquelas reaçoes de medo/susto/desconserto que eu via no rosto das pessoas?

Alguns minutos depois, percebi a causa. As sacolas que eu tava segurando eram de um supermercado de Dubai. E como todas as bolsas desse tipo de estabelecimento, eram coloridas e chamativas. Só que as letras eram obviamente da escrita árabe.

O vazio que senti foi grande. A sensação, terrível. Imaginei a situação do meu amigo Abdul, marroquino que vive aqui na Espanha, e de tantos Severinos cujos nomes se escrevem com letras pra nós esquisitas e de trás pra frente que tentam a sorte nas terras de além-mediterrâneo. 

Poucos dias depois, encontrei um nigeriano em Amsterdan que apontava pra minha camisa e ria. Tirei com ele a foto que ilustra essa história. Curiosamente, na sua camisa estava o título que coube direitinho aqui”.