Roberto é, por assim dizer, meu amigo particular.

Nos vemos pouco, é verdade.

Normalmente aos domingos ou às quartas, quando tem jogo do Sport e eu vou para as sociais.

Roberto está lá, com um isopor que chega a pesar mais de 10 quilos. No ombro.

Vende água e refrigerante. O que dava mais dinheiro, a cerveja, foi proibida por alguma mente brilhante, no primeiro semestre.

Não é esse o trabalho principal de Roberto. É a ‘viração’, como ele chama. Dá pra comprar o pão, o leite e o ovo pra suas cinco crias, além da esposa.

Até a semana passada, Roberto trabalhava numa gráfica.

Estava lá há sete anos e garante que já fez de tudo. Ultimamente fazia costuras de livros.

Não recebia horas extras, mas não raro trabalhava noites e fins de semana.

Um novo gerente não foi com sua cara e acabou dando-lhe baixa na carteira.

Vai receber alguns direitos, mas vai negociar para poder receber logo, sem precisar entrar na Justiça.

Oficialmente, Roberto está desempregado.

Deixou comigo seu telefone em letra bem desenhada nas costas de um panfleto de publicidade.

Se você ou alguém que você conhece quiser contratar um cabra rochedo, pode falar com Roberto.

Aqui vai o currículo dele, em linhas gerais:

Roberto, pernambucano, casado, cinco filhos, sete anos de experiência em gráfica, mais de dez de gazoseiro em campo de futebol (nunca errou um troco), trinta de vida, boa reputação, braços fortes, cabeça lúcida, passos firmes, muita vontade de trabalhar e de receber um salário justo por sua competente força de trabalho.