Carta de Maria Fernanda Vomero
Queridos amigos,
Ainda em estado de choque e triste, muito triste, pelo ataque israelense à frota internacional que levava ajuda humanitária a Gaza, escrevo-lhes essas linhas imprecisas e doloridas para partilhar minhas lágrimas e minha preocupação com o mundo que estamos construindo. Estamos aparentemente longe do conflito, mas isso não nos torna imunes: chacinas, desrespeitos à vida e à dignidade, violações dos direitos humanos e abusos diversos também acontecem do nosso lado, em nosso bairro, em nossa cidade, em nosso Brasil, no continente. Tenho certeza de que muitos de nós contribuímos para a paz em nosso cotidiano e dentro de nossos talentos e possibilidades. Entre o fazer e o não-fazer, fazemos, é certo. Mas será suficiente? Pergunto a mim mesma, antes de tudo.
Muitos de vocês sabem que já estive duas vezes na Cisjordânia (por 16 e 42 dias, respectivamente) e em Israel (por um mês). Embora tenha conhecido radicais dos dois lados, também convivi com gente idealista, romântica, sonhadora, batalhadora, trabalhadora… — em suma, gente como a gente. Fiz muitos amigos, especialmente do lado palestino. Ouvi muitas histórias. Me apaixonei. Chorei. Filmei algo: entrevistas, imagens doloridas, paisagens inesquecíveis. Algumas dessas cenas me assustam até hoje: estou no centro antigo de Hebron, onde palestinos “convivem” (entre muitíssimas aspas) com colonos judeus radicais, e um grupo de jovens soldados israelenses aponta suas armas para mim, porque carrego uma pequena videocâmera. Puxa. Graças à indicação de uma amiga (Márcia Beatriz), cheguei ao Freedom Theatre, espaço artístico onde jovens do campo de refugiados de Jenin podem se exprimir livremente, principalmente por meio do teatro (escrevi um post quando passei por lá para o site http://viajeaqui.abril.com.br/blog/saia-pelo-mundo/2008/06/sonhar-e-preciso-sempre/). Enfim, o conflito também deixou marcas em mim. Não saí da Palestina, em 2008, rumo à Jordânia, com certezas de que a situação iria melhorar, que a região iria encontrar um equilíbrio pacífico ou derrubar os muros e as diferenças entre os povos. Não. Mas saí de lá esperançosa. Afinal, a confiança no ser humano é a última que deve morrer.
Em 2009, quando passei por Brindisi, Itália, fui convidada pelo pessoal da Emergency para participar do lançamento de um livro de Vittorio Arrigone, um jornalista italiano que passou um ano em Gaza. Eu e outros dois convidados (ambos médicos italianos) daríamos nosso depoimento a respeito da experiência que tivemos em terras palestinas. Contei três histórias lá — a de Heba, uma jovem mãe do Dheishe Camp que já sabe o futuro de seus filhos; a de Imah, a quase-mulher-bomba de 28 anos na época, que passou quatro anos na prisão israelense quando seu cinturão de explosivos foi interceptado; e a de Ahmad, do Freedom Theatre, o jovem ator que sonhava poder dizer ao mundo: “Não sou terrorista, sou um artista.” Lembro-me deles hoje. E o italiano Vittorio, na noite do lançamento, disse que talvez voltasse a Gaza. E me convidou para me juntar ao grupo…
Há poucos dias, Jonatan, um enfermeiro judeu sueco (da mesma idade que eu), que trabalha no Freedom Theatre, mandou uma mensagem dizendo que iria zarpar com a frota humanitária. Jonatan já esteve até na Tanzânia e morou em Israel por um tempo. Para ele, o conflito é menos sobre dois povos de distintas religiões mas mesma origem étnica ancestral e muito mais uma questão de poder. Não é judeu na Palestina porque está contra seu sangue ou seu povo, não. É um judeu na Palestina porque acredita na paz. E está dando sua contribuição…
As notícias, por enquanto, são de dez ativistas mortos no ataque. Espero que Jonatan e Vittorio não estejam entre eles. Mas essas dez mortes já doem. E muito.
Fico desiludida porque hoje, mais uma vez, foi um quase um dia de paz… Prevaleceu a reação bélica e assustada, a intransigência, a incompreensão. Que provavelmente não reflete o que a maioria do povo israelense pensa… E olhando para dentro agora: num grau bem diminuto e diminutivo, será que também nós não semeamos algumas minúsculas belicosidades, sob forma de incompreensões ou agressividades, hoje, ontem, anteontem? Pergunto, sobretudo, para mim mesma.
Sonho com o momento em que nossos dias sejam plenos de paz, sejam inteiros e verdadeiros. Sejam pacíficos, de fato.
Estou disponível para ajudar a construi-los. E muito convicta disso.
Beijo grande e carinhoso, de um coração ainda entristecido,
Maria Fernanda
P.S.: Dois amigos, um descendente de judeus e outro, de libaneses, participam da coletânea de contos “Primos”, recém-lançada pela Record. A ideia foi reunir contistas de ascendência judaica ou árabe numa mesma obra. Uma bela iniciativa de, ao menos na literatura e pelas mãos de escritores brasileiros, a vida ser reinventada ou recontada de forma digna e pacífica.
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