Acabo de voltar de Engenho Maranguape, comunidade da cidade de Paulista, aqui bem perto do Recife. Mais uma vez, tive o prazer de passar algumas horas compartilhando o microfone da rádio Alternativa FM, uma rádio comunitária mais do que rocheda, capitaneada pelo comunicador David Moreno e tocada por toda a comunidade.

Uma visita até lá é sempre uma alegria. E eu juro que não é por causa do pratão de arrumadinho que a gente come na casa de David.

Dá gosto perceber a importância daquela rádio que funciona num pequeno imóvel pobre de acabamento e rico de energia positiva. No minúsculo estúdio, que passar na frente está automaticamente convidado a dar sua opinião sobre qualquer assunto, de peido a foguete. Onde mais? O telefone não para de tocar. Um músico local que ganha a vida em barzinhos entra com seu violão e entoa clássicos da MPB e composições próprias. Onde mais? Entre uma canção e outra, David lê trechos de publicações como a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). “Tem gente aqui ficando doida quando começa a saber dos direitos. A gente fala tanto que a turma acaba entendendo”, brinca David, que de moreno não tem nada. É negro, consciente e sabido.

De camiseta regata, bermudão e pés descalços ele comanda três horas diárias do seu programa Cada Dia. Quando não é ele, sempre tem alguém tocando a rádio, revesando-se entre locução e técnica. Crianças, jovens, idosos. Pessoas com ou sem deficiência. Todo mundo falando e sendo ouvido.

Por incrível que pareça, a bronca da Alternativa FM é com a lei. Na ativa por mais de três anos, a rádio ainda não conseguiu autorização do Ministério da Comunicação para funcionar. E não foi por falta de pedido. Toda a documentação necessária para a outorga adormece nas gavetas do MiniCom. Enquanto isso, David e seus ‘comparsas’ driblam a Polícia Federal montados numa liminar concedida pela Justiça, mas que o ministro está doido pra caçar.

Cuidado pra não acreditar quando te disserem que existe liberdade de expressão no Brasil. Podendo, visite o blog da Alternativa.