luciana-pintoLuciana Pinto é uma amiga querida que foi morar em Salvador. Dia desses recebi um imeiu dela, que ela também havia mandado para várias pessoas. Mulher, negra e solteira, Luciana queria alugar um apartamento. Numa conversa nada amigável com um corretor, descobriu que a delicadeza e o respeito nem sempre regem as interações entre as pessoas.

Bodega: O que aconteceu na corretora?
Luciana: Eu já tinha visto o apartamento e sabia que tinha uma outra pessoa na minha frente. Ainda assim, fui orientada pelos corretores a preencher o cadastro, para o caso de desistência. Quando fui à imobiliária entregar o cadastro, fui atendida por um funcionário, que checou se eu tinha pendências e verificou que estava tudo ok comigo e com a fiadora. Aí dirigiu-se ao proprietário da imobiliária.

Foi quando tudo começou. Esse proprietário, Sr. Carlos Borja, começou a questionar o meu local de trabalho, que é uma ONG.  Questionou também meus rendimentos com os trabalhos de consultoria. Quando eu informei que tinha uma pequena assessoria ele argumentou que no Brasil só quem ganhava dinheiro com as empresas era o governo. E que não aceitaria “qualquer” comprovação dessa renda. Perguntou se eu não tinha ao menos um carro. Eu havia levado os documentos de quitação do meu apto em Recife, mas ele não considerou..

Bodega: Como ele falava?
Luciana: Com tom agressivo, arrogante. Como quem desdenha. Disse que no meu caso precisaria de dois fiadores.

Bodega: Você não perguntou o que tinha de especial no seu caso?
Luciana: Não perguntei porque ele continuou falando. Me disse ainda que eu mantivesse os dados daquela pessoa, já que já tinha trazido os documentos, mas que precisava de outra, que fosse um médico, que ganhasse cerca de 8 mil reais e que tivesse pelo menos dois imóveis escriturados em seu nome e pelo menos um carro.

Bodega: Tinha que ser um médico? Não podia ser outra coisa?’
Luciana: Tinha que ser médico. Ele não estava só dando um exemplo. Insistia: “você não tem um medico na família?” Avisou que não aceitava contador, empresário, profissionais liberais ou advogados. Depois ele disse que poderia ser um funcionário público federal. Mas deixou claro que não poderia ganhar “só R$ 4 mil”. Que isso era dinheiro de soldado raso.

Bodega: Como essa conversa terminou?
Luciana: Quando eu disse que não tinha por hábito especular a renda das pessoas de minha relação ele saiu da sala, bateu a porta, e disse: “se você não faz isso é problema seu”.

Bodega: Que mal te pergunte, quanto era o aluguel?
Luciana: Somando com condomínio dava uns R$900

Bodega: Como você se sentiu?
Luciana: Péssima, desnorteada, frágil. Estava sozinha no momento. Não ter uma testemunha com quem pudesse tomar uma providência mais imediata, como ir à delegacia, ainda dificultava mais. Mas tinha certeza que isso tinha estrapolado todos os limites.

Bodega: O que você fez então? O que ainda vai fazer?
Luciana: Dei queixa por constrangimento e discriminação na delegacia da mulher e promovi uma mobilização. A carta que você leu está rodando a internet. As pessoas estão retornando para o email da imobiliária, rechaçando o comportamento do Borja e me apoiando. Também estou em contato com a defensoria pública e me preparando para ir ao Ministério Público. são muitos procedimentos, ainda estou me apropriando disso. Há uma escuta na delegacia, marcada para o dia 02 de junho…

Bodega: O que você espera que aconteça?
Luciana: Não acho que esse cara vai ser preso, ou penalizado de forma maior… Mas  pode ser que ele pense duas vezes antes de fazer isso de novo. Não tou me vingando, mas quero ser respeitada enquanto cidadã. Não dá pra concordar que o cara só acordou de mal humor ou pensar que denunciar não adianta, que o dinheiro sempre é mais forte que a justiça. O apoio dos amigos e de muitos desconhecidos foi fundamental para isso.

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Se você quiser ler a carta que Luciana escreveu e espalhou na internet, clique aqui.

Para mandar, você também, um email para a Imobiliária Borja, envie seu recado para o endereço imobiliariaborja@hotmail.com. O bodegueiro só deixa claro que não incentiva agressão de tipo algum. Se for reclamar, faça-o com elegância.

Se você é o próprio Carlos Borja e está se sentindo injustiçado, pode mandar seu texto que essa Bodega publica, na boa. Na hora feito caldo de cana.