Você já tentou ler uma sentença judicial? Já? O que entendeu entre datavênias e outrossims?

Tempos atrás (anos, na verdade), chegou no meu imeiu o que parecia (e era) uma sentença. Tratava-se do caso de um carpinteiro no interior da Bahia que botou na justiça uma loja que lhe vendeu um telefone celular que parou de funcionar com poucos dias de uso. Numa linguagem simples (e até divertida), o magistrado criticava os esforços e os recursos empreendidos pela empresa e dá ganho de causa ao cidadão.

Aqui entre nós, o texto era tão bom que eu duvidei de sua veracidade.

Ontem, uma amiga me mandou uma outra sentença intitulada “A crônica de um crime anunciado”. Essa, da esfera criminal. Nesse caso, o juiz manda soltar um rapaz de 21 anos condenado por pequenos furtos. Como ‘pena’, manda que ele corra as diversas instituições da cidade apresentando o texto da sentença, pedindo emprego e educação.

Dessa vez, havia o contato do magistrado. Se fosse mentira, eu iria saber na hora. Mandei-lhe um imeiu e rapidinho tinha uma resposta. Não só esse juiz existia, como tinha sido o mesmo a expedir a sentença do carpinteiro e ainda outra em que manda soltar uma garota grávida acusada de ter sido cúmplice do namorado traficante.

Trata-se do dotô Gerivaldo Alves Neiva, de Conceição do Coité, semi-árido baiano.

É capaz de você já ter lido alguma coisa dele, num desses imeius numseiquem te mandou.

Pra saber mais do homem, mandei-lhe uma mensagem com algumas perguntas. Para ajudar na introdução, perguntei um pouco sobre sua história de vida e ele acabou fazendo a introdução para mim:

Nasci no sertão da Bahia, em uma sexta-feira da paixão, meia-noite, do dia 13 de abril de 1962. Tive pouca sorte na vida, mas compensei com luta e disposição. Com 15 fui estudar em Salvador, participei de movimento estudantil (que saudade retada!), aos 17 ingressei na faculdade de direito, com 21 já era advogado de movimentos populares e sindical…… com 27 resolvi ser Juiz! Ingressei na magistratura da Bahia em 1990, andei por algumas Comarcas do interior e estou em Coité desde 1997. Cidadezinha boa de se morar, mulher professora de escola estadual, menino de 13 anos e menina de 10. Ninguém quer saber de cidade grande. Muito barulho e confusão. Aqui é bem melhor!

Chegou até aqui? Então não custa nada ler o bate papo do dotô Gerivaldo com esse bodegueiro.

BODEGA Nesses tempos, várias instituições são vistas com desconfiança por parte da população. É o caso do sistema judiciário, tido como hermético e elitista. Suas sentenças, digamos, “populares”, têm ajudado a modificar essa visão na sua comarca?
GERIVALDO ALVES NEIVA Nós somos o país dos bacharéis e da elite. O povo, ora o povo…. êpa, você perguntou sobre as sentenças populares, né? Claro que não muda a visão do judiciário, mas a relação com o Juiz, como dizia um antigo comercial de televisão, quanta diferença!!

BODEGA Como tem sido a reação dos colegas? Há pouco tempo, um juiz impediu um trabalhador de entrar em seu tribunal de chinelos. Como suas sentenças são vistas por seus pares e associações de magistrados?
GAN Que é isso, companheiro?! Colega é ladrão de bode! Brincadeira, viu? Tem de tudo um pouco: aparecido, doido, demasiadamente humano, justo, porreta….  eu gostei muito do comentário de um amigo sobre aquela sentença do celular do carpinteiro: “é a sua cara!”

BODEGA Em sua sentença “A crônica de um crime anunciado”, o doutor afirma que, nesse caso, prefere a justiça à lei. Como diferenciar uma da outra no dia-a-dia?
GAN Como diz um palhaço cearense, lei é lei e justiça é justiça! A lei manda prender e a justiça manda soltar. Falando sério, a lei é a norma elaborada para controlar e manter a ordem social; a justiça é o ideal de sociedade justa e fraterna, ou seja, a utopia! É o juiz justo entre a cruz e a espada, diariamente…

BODEGA Dizem que cabeça de juiz é igual a bumbum de neném, pelo inesperado que pode sempre surgir. O que a população brasileira deveria esperar dos nossos magistrados?
GAN Depende… Qual “população brasileira” você está se referindo? A de Daniel Dantas ou do Mudinho de Coité? Rapaz, o Juiz nasce na sociedade de classes, participa dela e julga os conflitos dessa mesma sociedade, entendeu? Se não, pergunte a o resto a Marx!

Se eu fosse você, eu lia de novo esse texto. Dessa vez clicando em todos os hiperlinks que levam às sentenças de Alves Neiva. Use o tempo em que você estaria vendo o noticiário da televisão ou os imeius de piada que aquele seu amigo te manda. Vá por mim que vale a pena.

Sem onda. A essa altura, alguém já devia ter feito uma matéria séria sobre esse cara.