VITÓRIA/ES: Caio Turbay, esse aí da foto, é daqueles caras sabidos que sabem explicar as coisas direitinho, do jeito que até eu entendo. O homem é geólogo, formado há nove anos. De lá pra cá, trabalhou metade do tempo em empresas privadas e o restante em universidades. Hoje, mora com a esposa Érica e o bebê Caíque na cidade de Alegre/ES. Lá o rapaz ensina petrologia e mineralogia para felizardos e felizardas estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo. Como se não bastasse isso tudo, ele ainda está terminando o doutorado e é meu muito amigo particular.
Troquei uma idéia com ele enquanto passeávamos por Vitória e Vila Velha, dia desses. O rapaz me explicava a origem das serras, como se formam as ondas e coisas do tipo, quando o papo acabou tomando um rumo diferente. Caio falava das atribuições da sua profissão e de como a gente (que não entende) deixa de saber um monte de coisa que seria bom a gente saber. Você sabia, por exemplo, que é importante que geólogos façam parte da equipe de trabalho em grandes construções? E que muitas vezes as empresas não os contratam? Saca só o bate papo. Ficou grande, mas ficou bom.
Eu: Porque é preciso que se contrate geólogos em construções?
Caio: Construções civis simples, como prédios e casas, podem ter como supervisor um engenheiro civil. O problema é nas grandes obras de engenharia, como túneis, barragens e estradas. Aí é preciso conhecer a fundo as qualidades e estruturas das rochas. Elas possuem heterogeneidades e não se comportam como materiais homogêneos. Partindo deste ponto, existem inúmeras técnicas e conhecimentos inerentes ao geólogo que os tornam capazes de dimensionar e reconhecer a capacidade e riscos inerentes a cada tipo de rocha e estrutura geológica. A formação do engenheiro civil não abrange este nível nem área de conhecimento.
Eu: Nesse caso, qual é o perigo de não se contratar um geólogo, por exemplo, pra se construir um shopping ou uma estação de metrô?
Caio: O perigo é o de um acidente, como o que aconteceu no metrô de São Paulo. Muitas vezes os engenheiros enxergam os materiais geológicos como estáticos e homogêneos. Na verdade, rochas e materiais sedimentares, como lama e areia, são extremamente dinâmicos, interagindo com fluídos, se deteriorando, se movimentando, etc.
Eu: Não tinha geólogo naquela construção do metrô?
Caio: Não sei… Acho que não. Tanto é que depois eles consultaram vários. A legislação agora está mais forte. Tenho observado a construção de várias centrais hidrelétricas que estão contratando geólogos. Mas no passado e ainda em alguns setores, os engenheiros civis acham que podem suprir esta necessidade.
Eu: O que dizem os órgãos de classe de vocês?
Caio: Somos ligados ao Crea e ele é comandado por engenheiros das mais diferentes especialidades: civis, elétricos, mecânicos… A geologia é apenas uma câmara dentro do Crea sem muita voz. Assim, vez por outra o Crea tenta mexer nas nossas atribuições profissionais para permitir que engenheiros realizem trabalhos inerentes a geólogos. O problema é que a classe é desunida e os geólogos que estão no Crea são oportunistas. No conchavo com os engenheiros, conseguem bons trabalhos, bons contatos, etc. O ideal seria um conselho para as ciências da Terra, que englobasse a Geologia, a Oceanografia.

Na atual conjuntura, o Crea é um saco de gatos que só favorece aos engenheiros. Existe uma máfia no Crea. O que tem a ver arquitetura, meteorologia, geologia e engenharia elétrica? Tudo faz parte do mesmo conselho.
As pessoas comentam em congressos, simpósios, reclamam esperneiam, mas todo mundo é muito acomodado. Eu gostaria muito de lutar por isso, mas na atual conjuntura da minha vida (terminando o doutorado e montando um curso de graduação) está faltando tempo…
Eu: Isso tudo que você fala é sobre o Crea do Espírito Santo…
Caio: Não, do Brasil. Eles falam que um dos benefícios que temos é a proteção dos nossos direitos como geólogos e das nossas atribuições. As atribuições eles tentam nos roubar a todo custo. Quanto aos direitos, a fiscalização profissional na área da geologia é praticamente inexistente. Só para você ter uma idéia, nas plataformas de petróleo existem inúmeros estrangeiros trabalhando, com visto de turista, que entram e saem do nosso país. E que às vezes não possuem sequer formação técnica na área. E nós, brasileiros, os reverenciamos – afinal eles são gringos e falam “ingrês”. Uma vez questionei o presidente do Crea aqui do Espírito Santo sobre isso. Ele gaguejou e saiu pela tangente.
samarone
25 de April de 2008 às 12:26 pm
Ivanzinho, descobri uma coisa ótima no meu novo blog. Basta clicar no teu nome, que a parada vem pra ca.
Aproveitei para ler. Muita coisa boa.
sama, seu criado
Érico Oliveira
26 de April de 2008 às 11:44 am
Eu como arquiteto sei bem o que Caio está falando. Já faz alguns anos que os arquitetos tentam se desvincular do CREA e ter seu próprio conselho de classe exatamente pelos mesmos motivos que Caio citou. No final do ano passado chegamos a aprovar uma lei no congresso regulamentando o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo), mas nosso “querido” presidente Lula vetou por entender que o projeto deveria ser de autoria do Executivo. É difícil, mas vamos continuar tentando.
Vane
27 de April de 2008 às 8:05 pm
Rapaz, só fico lembrando daqueles prédios caíram em Olinda e Piedade há uns anos, é muita irresponsabilidade, né?