Você pode dizer que, apesar de jovem, César Rocha é um jornalista rodado. Já trabalhou nas editorias de política dos três grandes jornais de Pernambuco, já fez parte da equipe de comunicação do Ministério da Saúde, já começou dois dos mais acessados blogs dessas terras – e está pra começar um terceiro, teimoso que é. Só eleições, cobriu todas de 94 pra cá. Hoje é editor do Diario de Pernambuco e vive às voltas atrás das grandes histórias e dos grandes contextos das eleições municipais do Recife.

Ao longo da carreira, já foi ‘xingado’ de petista e de democrata sem ser nem um nem outro. Isso e o fato de ele ser meu amigo o credenciam para nos explicar um pouco sobre essa coisa cabulosa que é a eleição para o legislativo. Você, cara leitora, sabe como se faz um vereador?

Bodega: São 37 vagas para a câmara no Recife. Os 37 mais votados estão garantidos?
César Rocha: Não

B: Por quê?
CR: São 37 vagas, mas a distribuição é de acordo com o volume de votos por coligação ou partido.  É o seguinte:  a Justiça, no final da eleição, vê quantos votos válidos foram registrados (total, sem nulos, brancos e abstenções). Aí divide esse total pelas 37 vagas e o resultado disso é o que se chama de quociente eleitoral.

B: E?
CR: Feito isso, vamos ver quantos votos os partidos isolados ou organizados em coligações tiveram. quantos votos eles tiveram de legenda e para cada candidato. Por exemplo. O quociente foi 90 mil votos. Uma coligação teve 900 mil votos entre votos de legenda e votos pra cada candidato. Então, a coligação  terá direito a dez vagas e essas vagas serão preenchidas pelos mais votados da coligação. Isso não quer dizer os mais votados da eleição. Porque alguém, por exemplo, pode ter 80 mil votos mais 9 mil dos outros candidatos da coligação  e não entrar, enquanto que um da coligação vitoriosa pode ter mil e entrar

B: A coligação é a mesma que apóia os candidatos a prefeito?
CR: As coligações podem ser ou não as mesmas. Na de João da Costa, por exemplo, há, eu acho, oito chapas de vereador. Aqui no Recife, os grandes partidos, PT, PSB e PTB estão juntos, os outros formam outras coligações ou saem isolados, como o PCdoB de Luciano Siqueira. Mas os partidos não podem estar coligados pra vereador e ter candidatos a prefeito diferentes.

B: Então o PCdoB apóia João da Costa para prefeito, mas não entra na coligação para vereadores?
CR: Os 16 partidos que apóiam JC podem lançar 16 chapas de vereador, mas têm que estar coligados com JC na majoritária. O PSDC de Luiz Vidal não pode apoiar JC e se coligar pra vereador com o DEM de Mendonça. Cada chapinha dessas tem uma lógica diferente. Por exemplo, o PV só continuou com o PPS de Raul Jungmann porque precisa dos 14 mil votos que o PPS deve conseguir pra vereador (segundo estimativas) pra poder reeleger os dois vereadores verdes que tem.

B: Então existem coligações mais ‘fáceis’ de o cara se eleger? O que as tornam fáceis?
CR: Eleição para vereador nunca é fácil. Veja que no Recife normalmente temos 800 mil votos válidos para vereador e mais de 700 candidatos. Então, para cada mil, mil e poucos eleitores tem um cidadão ou cidadã pedindo votos. Mas existem, digamos assim, algumas facilidades os partidos pequenos procuram formar chapas com gente que tenha uma média razoável de votos para garantir um, duas ou até mais vagas na soma total de votos. Há ainda casos, como o do PCdoB, que terá um candidatos extremamente forte, o vice-prefeito Luciano Siqueira, e por isso haverá alguma “facilidade” para eleição de outros comunistas, os que devem entrar no rastro dele. Por fim, há vantagens comparativas como ter uma chapa de vereadores com candidato forte a prefeito; estar vinculado ao governo (o orçamento participativo, por exemplo, garante um contato muito profundo com as comunidades); ou, simplesmente, ser uma chapa com bastante recursos para gastar.

B: Em tempos de lei seca, o que fazer?
CR: Os candidatos grandes não têm problemas. Eles andam com motorista. No caso dos eleitores, bem, o jeito é fazer como todo mundo hoje: beber perto de casa, voltar de ônibus, carona ou taxi